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  Título
Figuras do engajamento: o cinema recente brasileiro
Autor
Cezar Migliorin
Resumo Expandido
Apoiado em grande parte nos anos anteriores desse seminário e em publicações que se dedicaram ao cinema brasileiro recente, sobretudo em seu viés político, e com especial atenção aos filmes, mapeamos, por hora, cinco figuras do engajamento. Trata-se também de um esforço de sistematização em torno das relações entre política e estética no cinema.

Tais figuras não tem uma função classificatória. Não se trata de criar pastas onde os filmes podem ser encaixados, até porque os filmes acabam sendo maiores que os recortes que as figuras podem ter, além de trazer características que os fazem transitar entre as figuras. Por vezes, é justamente nas passagens entre figuras que podemos contribuir para as pesquisas sobre o cinema brasileiro.

Apesar da fragilidade, esse exercício de taxonomia nos permite um olhar para a diversidade e complexidade da produção e das escrituras que forjam o cinema contemporâneo, assim como nos permite adensar a reflexão em torno de uma política das imagens.

Se podemos, a partir dos filmes contemporâneos, encontrar e construir essas figuras, ficamos com o desafio de, a partir delas, traçar linhas históricas que as atravessam. O que certamente não será parte dessa comunicação, mas que apenas indica que este mapeamento não possui nenhum isolamento em relação às formas como o cinema se engajou com seu tempo.

1 - Um gesto corrente no cinema contemporâneo tem sido a produção de filmes em que a imagem é parte de um “relacionismo”, de uma produção em que os limites entre sujeitos e objetos não estão claros e em que o descontrole dos encontros pode gerar acontecimentos, gestos, falas e atualizações de mundos em potência, como em Hipermulheres, de Leo Sette, Carlos Fausto e Takumã Kuikuro ou Moscou, de Eduardo Coutinho. Figuras do encontro.

2 - Filmes como Andarilho e A alma do osso de Cao Guimarães se concretizam com modos de fala e movimentos em que os esquadrinhamentos do texto, dos gestos e dos lugares de poder desmoronam. Distantes de uma desejo de comunicação, estamos mais próximos de estranhamentos sensíveis que são também produtores de formas de vida permeadas por invenções estéticas. Nas Figuras dos desmoronamentos produtivos é frequente a atenção às possibilidades estéticas do banal e do cotidiano.

3 - Filmes como Serras da desordem, de Andrea Tonacci, O Céu sobre os ombros, de Sérgio Borges e A cidade é uma só?, realizado por Adirley Queiroz, utilizam reencenações, sobreposição de cenas e a própria vida se performando. Esses gestos que reorganizando cenas e operam novas configurações do visível e do sensível atravessam as Figuras da ficcionalização.

4 - Figuras das processualidades subjetivas. Ensaios e auto-ficções que transitam entre uma dimensão subjetiva forte, frequentemente na primeira pessoa e que, a partir desse gesto, operam passagens e discutem questões históricas, narrativas ou poéticas como Diário de uma Busca, de Flavia Castro, Santiago, de João Salles e Pan-cinema permanente, de Carlos Nader.

5- Apropriações e reempregos de imagens e sons, recolocação das falas e vivências em rememorações dos eventos. O arquivo aqui é pensado como uma fala ou um som que sai de um lugar e de um tempo para ser colocado em outro, sobrepondo tempos e colocando imagens em fricção. Filmes como Hércules 56, de Silvio Da-rin, Tropicália, de Marcelo Machado, Pacific de Marcelo Pedroso ou Os Signos da Luz, de Joel Pizzini, nos mobilizam para pensarmos essas figuras do deslocamento.
Bibliografia

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BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e Imagens do Povo. São Paulo: Cia das Letras, 2003.

COMOLLI, J-L.Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

FELDMAN, I. O apelo realista: uma expressão estética da biopolítica. Texto apresentado no XVII Encontro da Compós, na Unip, São Paulo, jun. 2008.

FRANÇA, A.. O cinema, seu duplo e o tribunal em cena. Revista FAMECO. Porto Alegre, n. 36, ago.2008.

LATOUR, Bruno, 2000. Jamais Fomos Modernos. São Paulo: Editora 34, 1994.

MIGLIORIN, Cezar (org.). Ensaios no Real. Rio de Janeiro: Ed. Azougue, 2010.

RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento. Política e filosofia. São Paulo: ed. 34, 1996.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.