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  Título
A condição pós-virtual da imagem: da imersão à projeção
Autor
Cesar Baio
Resumo Expandido
O presente texto parte da análise de um conjunto de obras instalativas imersivas do campo do chamado “cinema digitalmente expandido” (Shaw, 2002) para revelar a crise imposta a tais regimes de imagem por trabalhos experimentais que investem em outros estatutos de imagem, propondo integrar a virtualidade da imagem àquela vivida na nossa experiência do mundo. Tais obras estão localizadas em um campo abrangente da arte contemporânea marcado por subversões, invenções e reapropriações do dispositivo cinematográfico, seja pelo diálogo com aparatos da chamada “dead media”, seja por meio do uso de recursos avançados das tecnologias atuais.

A partir dos anos 1980, com o avanço da base técnica digital, buscou-se algo que tornasse ainda mais imersiva a experiência das imagens e sons. Muitos artistas passaram a procurar maneiras de ampliar a intensidade da experiência do dispositivo cinematográfico (Baudry, 1983), criando imagens e narrativas que fizessem o sujeito imergir em um “mundo virtual”, segundo o modelo que Söke Dinkla (2002), como “the floating work of art”, obras de arte que utilizam as tecnologias interativas para fazer o seu público navegar em espaços de experiência. Estas obras têm apostado no digital como uma ampliação a virtualidade da imagem e buscam meios para deslocar o público para esse universo outro, o conduzindo a mergulhar cada vez mais fundo nos ambientes imersivos.

Tais propostas são examinadas aqui a partir de sua gênese estética, que encontra antecedentes em Platão e remonta modelos que são atualizados de diferentes maneiras no Renascimento; depois, na fotografia, no teatro realista ilusionista do século XVIII e, por fim, no cinema. Este texto parte, então, da análise dos modelos epistemológicos e estéticos em vigor nesses ambientes imersivos para refletir sobre sua validade no cenário contemporâneo. Em um contexto cultural em que as tecnologias e as redes de comunicação deixam de se constituir como espaços passíveis de separação da realidade e passam a se integrar de maneira cada vez mais íntima ao cotidiano, ao espaço e aos corpos, ainda faz sentido pensar a imagem a partir dos paradigmas da imersão no virtual? Quais outros parâmetros poderiam ajudar a compreender a condição da imagem contemporânea?

Uma possível resposta pode ser encontrada em trabalhos de artistas que procuram outros modos de pensar as potencialidades introduzidas pelas tecnologias digitais na arte. Estes artistas investem na criação de imagens nas quais se pode tocar, em interfaces simplificadas e em dispositivos que visam lançar a imagem como uma projeção na concretude da realidade, seja por meio das tecnologias de realidade aumentada, das mídias locativas ou pela intervenção política e estética nas redes on-line e off-line. Essa é a proposta de pioneiros como Myron Krueger e David Rokeby e de artistas mais recentes como Raphael Lozano-Hemmer, Zachary Lieberman, Chris O’Shea, Lucas Bambozzi, Daniela Kutschat e Rejane Cantoni.

Entendida como fenômeno que se projeta rumo a nossa experiência, a imagem nos trabalhos destes artistas parece assumir, assim, um estatuto pós-virtual. Isso, não porque ela perde sua virtualidade, mas porque ela se integra definitivamente às virtualidades do próprio mundo, não somente aquelas de ordem física mas, sobretudo, as de ordem cultural, incluindo aspectos sociais, políticos, afetivos, estéticos e os muitos outros. Em um contexto em que roupas, objetos, corpos e espaços incorporam microcontroladores, sensores e telas das mais diversas, tudo que nos cerca passa a ser potencialmente uma plataforma para a criação audiovisual. Essa análise é empreendida aqui a partir da filosofia de Vilém Flusser, para quem o mundo é resultado de sobreposições e atravessamentos de inúmeros processos de codificação de sentido implicados na fala, nos gestos, na ciência, nas instituições, nas relações de afeto, nas tecnologias de mediação e em todos os outros aparatos que constituem nosso modo de existir no mundo.
Bibliografia

BAUDRY, Jean-Louis. Efeitos ideológicos producidos pelo aparéelo de base. In. XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilmes, 1983.

DINKLA, Söke. The art of narrative: towards the floating work of art. In. RIESER, Mark, ZAPP, Andrea (ed.). New screen media: cinema/art/narrative. Londres: BFI Publishing, 2002.

FLUSSER, Vilém. We shall survive in the memory of others. Budapest: C3 Center for Culture and Communication Foundation, 2010. (DVD)

______. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

______. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

MACHADO, Arlindo. Máquina e imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas. São Paulo: Edusp, 1993.

SHAW, Jeffrey. Movies after film: the digitally expanded cinema. In. RIESER, Mark, ZAPP, Andrea (ed.). New screen media: cinema/art/narrative. Londres: BFI Publishing, 2002.