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  Título
A ilusão da imagem: o sonho do estrelismo brasileiro em Hollywood
Autor
Isabella Regina Oliveira Goulart
Resumo Expandido
Em 1926, nossas revistas e jornais noticiaram o Concurso de Beleza Fotogênica Feminina e Varonil da Fox-Film, que se propunha a escolher dois brasileiros para ingressarem no estúdio em Hollywood. Entre os jovens seduzidos pelo sonho do estrelismo (alguns já atuavam no cinema nacional, como Lelita Rosa, Luiz Sucupira, Armanda Maucery, Georgette Ferret, Diogenes Nioac, Francisco Mauro e Olyria Salgado), foram vencedores a carioca Lia Torá e o paulista Olympio Guilherme. Tentando aumentar sua popularidade no país, o estúdio recorria à mística personificada nas estrelas do cinema mudo hollywoodiano, cujas fotografias saíam na imprensa nacional (os filmes falados eram uma realidade iminente, que seria infligida a Torá e Guilherme). Versões do concurso aconteceram no mesmo ano na Argentina, Chile, Espanha e Itália. Embora se tratasse de uma estratégia publicitária, ela pode ser vista também como uma busca por atores para atender mercados internacionais e grupos étnicos nos Estados Unidos num período em que Hollywood confirmava sua hegemonia e tipos latinos, como Rodolpho Valentino, Ramon Novarro, Dolores Del Rio, Ricardo Cortez e Antonio Moreno, faziam sucesso. A sedução pelos filmes hollywoodianos, assim como os requisitos racializantes do concurso (os candidatos deveriam ser “brancos” e de “sangue latino”, entrando em negociação uma imagem de “latinidade” elaborada por Hollywood, que via italianos, espanhóis e latino-americanos como um grande grupo latino), encerra elementos simbólicos, culturais, estéticos, econômicos e relações entre grupos étnico-nacionais, que estiveram também refletidas nas sociedades norte-americana e brasileira.

Segundo Beatriz Sarlo (1997), a cobertura ao cinema em grandes jornais, com informações sobre a indústria, notícias sobre a vida das estrelas, programação das salas, e a proliferação de revistas especializadas na mitologia do star system mostram que o cinema havia se enxertado poderosamente como forma da sensibilidade estética de um público amplo. Ismail Xavier (1978) observa que, no Brasil, o crescimento do mercado e o grau de organização dos negócios cinematográficos nos anos 20 atingiram um estágio favorável ao acréscimo de revistas. A intensificação da circulação de impressos, o rádio e o cinema ampliaram a mediação cultural. A mídia contribuiu para definir os nichos e o espaço dos produtos culturais que entravam no país, influenciando o público a incorporar práticas e padrões estéticos. A cultura popular norte-americana, com programas de rádio, discos e filmes, fascinava os brasileiros urbanos. Ao mesmo tempo, com a urbanização de cidades como São Paulo nas primeiras décadas do século XX, houve uma reorganização das formas de apresentação corporal, que marcavam a presença de homens, mulheres e dos grupos sociais no espaço coletivo da cidade, resultando um novo modelo de beleza relacionado ao consumo, às ideias de saúde e higiene, endossado pela Cinearte e revistas femininas. Os concursos de beleza, que se difundiram nos anos 20, ajudaram a construir um modelo físico definido, cada vez mais, pela imagem das estrelas de Hollywood.

Nossa principal fonte foram publicações em jornais e revistas, que em 1926-27 divulgaram ainda outros concursos de beleza, como o do recém-criado Circuito Nacional de Exibidores para eleger a Rainha do Cinema Brasileiro. Pesquisamos os periódicos Scena Muda, Cinearte, Selecta, A Cigarra, Fon Fon, O Malho, O Estado de São Paulo, Correio da Manhã, Folha da Manhã, Jornal do Brasil e Diário da Noite. Consultamos os acervos da Cinemateca Brasileira, do Arquivo Público do Estado de São Paulo, da Fundação Biblioteca Nacional e da Funarte; os acervos online da Biblioteca Digital das Artes do Espetáculo (Biblioteca Jenny Klabin Segall http://www.bjksdigital.museusegall.org.br/projeto.htm), do Arquivo Público do Estado de São Paulo (http://www.arquivoestado.sp.gov.br), da Biblioteca Nacional (http://bndigital.bn.br/) e do projeto J Carlos em Revista (http://www.jotacarlos.org/).
Bibliografia

DYER, Richard. Stars. Londres: British Film Institute, 1979.

GALVÃO, Maria Rita. Crônica do cinema paulistano. São Paulo: Ática, 1975.

GOMES, Paulo Emilio Salles. Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. São Paulo: Perspectiva/Ed. Universidade de São Paulo, 1974.

HEATHER, Addison. Hollywood and the rise of physical culture. New York: Routledge, 2003.

RODRIGUEZ, Clara E. Heroes, lovers and others: the story of Latinos in Hollywood. 2 ed. Nova York: Oxford University Press, 2008.

SARLO, Beatriz. La imaginación técnica: sueños modernos de la cultura argentina. Buenos Aires: Nueva Visión, 1997 (2 ed).

SCHPUN, Mônica Raisa. Beleza em jogo: cultura física e comportamento em São Paulo nos anos 1920. São Paulo: Boitempo Editorial, 1999.

SHOHAT, Ella & STAM, Robert. Etnicidades-em-relação. In: ______. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006, pp.313-353.

XAVIER, Ismail. Sétima arte: um culto moderno. São Paulo: Perspectiva, 1978.