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  Título
Valsa com Bashir e A Onda Verde: história, memória e animação
Autor
Jennifer Jane Serra
Resumo Expandido
Nos últimos anos presenciamos uma diluição das fronteiras do campo do cinema documentário com a produção de filmes híbridos que extrapolam suas definições mais tradicionais, como aqueles que combinam ficção e não-ficção, video-arte e documentário, documentário e comédia etc., além da multiplicação de filmes que conjugam narrativa não-ficcional e técnicas de animação, classificados como documentários animados. Partindo da popularização do uso de animação para o registro de narrativas audiovisuais documentárias, esta comunicação tem como objetivo analisar o potencial da animação na (re)construção visual de acontecimentos históricos, através do estudo de dois documentários animados: a produção israelense Valsa com Bashir, de 2008, dirigido por Ari Folman e A Onda Verde, uma produção alemã dirigida pelo iraniano Ali Samadi Ahadi em 2010.

Filme premiado em diversos festivais de cinema, Valsa com Bashir foi construído a partir de relatos de ex-combatentes do exército israelense que lutaram ao lado de Ari Folman na Guerra do Líbano, em 1982. Buscando suas memórias perdidas, o diretor reconstruiu através da animação sua experiência no massacre de Sabra e Chatila, ocorrido durante a guerra. O filme A Onda Verde, por sua vez, busca apresentar uma reflexão sobre o processo de eleição presidencial no Irã em 2009, fazendo uso de entrevistas, imagens digitais captadas nas ruas de Teerã e animações que reproduzem e ilustram depoimentos de anônimos que denunciaram em blogs e no twitter a violenta repressão imposta pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad às manifestações em favor do candidato da oposição, Mir-Houssei Mousavi.

Podendo tornar visíveis paisagens mentais, sentimentos e conceitos, a animação permite construir imagens de experiências passadas que não foram registradas, funcionando, assim, como uma ferramenta de registro histórico através de relatos e depoimentos. Através da análise do documentário de animação, pretendemos refletir sobre a memória enquanto fonte para a (re)construção da história social e de nossa experiência de mundo, considerando as questões que circundam os conceitos de história factual, memória, fonte histórica, depoimentos e documentos. Nesse sentido, como nos coloca Beatriz Sarlo, através de sua problematização dos significados dos testemunhos orais, há uma supervalorização da memória nos discursos contemporâneos que precisa ser analisada. Pretendemos também avaliar o valor histórico da imagem animada, tendo em conta o debate em torno do valor das imagens cinematográficas para a historiografia. Segundo Marcius Freire, há uma desconfiança por parte dos especialistas das ciências humanas em relação às imagens cinematográficas pela forte relação destas com o entretenimento, “em detrimento de qualquer tentativa de exploração do potencial cognitivo desses suportes”. Pretendemos estender este debate para a exploração da animação como forma de representação historiográfica, considerando também as diferenças entre a imagem produzida por técnicas de animação e a imagem da câmera. Segundo Paul Wells, o documentário animado provoca o questionamento acerca da noção de “evidência” ao apresentar a imagem animada como uma alternativa de recurso provador pautado na interpretação de fatos, oferecendo uma síntese de atualidade, memória e estética, isto é, uma forma de comprovar fatos que se move além das noções de “informação” e “evidencia factual”.

Consideramos que a recordação de experiências passadas é sempre um processo subjetivo e seu resultado nem sempre corresponde aos fatos ou coisas tal como eles se manifestaram na realidade. Evidenciando a subjetividade inerente ao processo de produção das imagens animadas, o documentário animado pode despertar a atenção do espectador para o fato de que não existe uma verdade única e de que uma narrativa acerca de um acontecimento histórico, seja ficcional ou documental, é sempre construída a partir de um ponto de vista, entre tantos outros possíveis.
Bibliografia

FERRO, Marc. Cinema e história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

FREIRE, Marcius. Sombras Esculpindo o Passado: métodos ... e alguns lapsos de memória no estudo das relações do cinema com a história. Revista Fragmentos de Cultura, v. 16, n. 9\10, set\out 2006, p. 705-719.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas Afinal... O que é mesmo Documentário?. São Paulo:

Editora Senac, 2008.

RENOV, Michael (ed.). Theorizing Documentary. Nova Iorque e Londres: Routledge, 1993.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da UNICAMP, 2007.

ROSENSTONE, Robert A. A história nos filmes, os filmes na história. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo, SP; Belo Horizonte, MG: Companhia das Letras: Editora da UFMG, 2007.

WELLS, Paul. Understanding Animation. Londres: Routledge, 1998.