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  Título
A cognoscibilidade em filmes para crianças: análise de casos
Autor
Mirian Ou
Resumo Expandido
A definição e as características dos filmes infantis ainda não receberam muita atenção nos estudos de cinema e de audiovisual. Bazalgette e Staples (1995), autores bastante citados nos poucos trabalhos sobre o tema, afirmam que o filme para crianças, por definição, deve oferecer “principal ou inteiramente um ponto de vista infantil” (p. 96, tradução nossa).

A noção de ponto de vista no cinema, contudo, é bastante escorregadia e utilizada muitas vezes de forma frouxa (BORDWELL, 1985), como na definição proposta pelos citados autores britânicos. O que exatamente seria um “ponto de vista infantil”?

Bordwell (1985) propõe algumas categorias de análise menos amplas em vez de utilizar o conceito de ponto de vista. Uma delas é a cognoscibilidade. Baseado no teórico literário Meir Sternberg, Bordwell propõe que a cognoscibilidade é um aspecto narrativo que envolve a amplitude e a profundidade de conhecimento que a narração oferece aos espectadores. Com relação à amplitude, verifica-se que a narração pode se restringir mais ou menos ao que um determinado personagem sabe. Assim, a narração pode ser mais ou menos onisciente. Com relação à profundidade, verifica-se o grau de objetividade ou de subjetividade das imagens e sons oferecidos. Dessa forma, a narração pode permanecer externa aos personagens ou oferecer um mergulho em sua mente, por exemplo.

Com o intuito de começar a discussão da proposta de Bazalgette e Staples, este trabalho pretende fazer uma análise e comparar a cognoscibilidade da narração de dois filmes infantis brasileiros, a saber: Menino maluquinho – o filme (Helvécio Ratton, 1994) e sua continuação, Menino maluquinho 2 – a aventura (Fernando Meirelles e Fabrizia Alves Pinto, 1998).

Um dos eixos da comparação será a amplitude e a profundidade da cognoscibilidade com relação aos personagens adultos e aos personagens crianças. Em que momentos a narração se restringe a um ou outro tipo de personagem? A narração demonstra explorar a subjetividade desses personagens? De quais deles?

Além de uma comparação quantitativa, pretende-se também efetuar uma comparação qualitativa. Nas imagens e sons mais objetivos, como é o enquadramento e a mise-en-scène dos personagens infantis em relação aos adultos? Há destaque maior para um ou para outro? Os materiais mais subjetivos, como são construídos?

Em ambos os filmes analisados, serão ressaltados os diferentes artifícios por meio dos quais a narração restringe mais a cognoscibilidade à criança e explora a sua subjetividade. Não obstante, também se destacarão as diversas formas com que os personagens adultos são tratados pela narração.

Bibliografia

BAZALGETTE, Cary; STAPLES, Terry. Unshrinking the kids: children's cinema and the family film. In: BAZALGETTE, Cary; BUCKINGHAM, David. In front of the children: screen entertainment and young audiences. London: British Film Institute, 1995. p 92-108.



BORDWELL, David. Narration in the fiction film. Madison: University of Wisconsin Press, 1985.



______. O cinema clássico hollywoodiano: normas e princípios narrativos. In: RAMOS, Fernão Pessoa (org.). Teoria contemporânea do cinema: documentário e narratividade ficcional, volume II. São Paulo: Senac, 2004, p. 277 - 302.



GAUDREAULT, André; JOST, François. A narrativa cinematográfica. Brasília: Ed. UnB, 2009.



JULLIER, Laurent; MARIE, Michel. Lendo as imagens do cinema. São Paulo: Senac São Paulo, 2009.