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  Título
A contribuição teórica de Gustavo Dahl para o Cinema Novo
Autor
Julio Cesar Bazanini
Resumo Expandido
O objetivo desta comunicação é analisar os textos escritos pelo crítico e cineasta Gustavo Dahl desde o início de sua carreira, no fim dos anos 1950, quando começa a escrever sobre cinema, até a realização de seu primeiro longa-metragem, O bravo guerreiro, em 1968, assim como compará-los com este.

Até hoje poucos pesquisadores dedicaram-se ao estudo destes documentos. Dentre eles destacamos, e aqui utilizaremos, os trabalhos de Arthur Autran e de Jean-Claude Bernardet.

O filme mostra a frustrada trajetória política do deputado Miguel Horta (Paulo Cesar Peréio) ao mudar de um partido da oposição para outro da situação, na tentativa de ver aprovado um antigo projeto de melhoria das condições da classe operária.

Nesta análise ficam perceptíveis pontos de acordo e desacordo entre o que foi posto em prática no filme e o que Dahl escrevera anteriormente, revelando um pensamento bastante flexível. Estes artigos mostram-se importantes para a compreensão do que foi o movimento do Cinema Novo e os rumos que por este foi almejado em cada momento. O período aqui delimitado abrange a formação da ideia que uniria os jovens diretores em torno de tal movimento cinematográfico e a primeira e a segunda fase deste, como estão demarcadas por Fernão Ramos. Em todos estes momentos Dahl esteve ativamente presente, em contato com os outros críticos e diretores que de ideais semelhantes comungavam.

O cenário político-econômico brasileiro altera-se constante e drasticamente no decorrer dos anos 1960. Dahl escreve muitos destes textos baseado em suas expectativas sobre o futuro que ao país pertenceria, muitas vezes parecido a uma visão etapista ou teleológica nos moldes da teoria marxista, como se o que ocorreu em outro país mais “evoluído culturalmente”, em suas próprias palavras, pudesse servir de lição para países menos desenvolvidos quando chegassem sua vez de passar pelos mesmos problemas. Isto fica claro em artigos como Cinema Novo e Estruturas Econômicas Tradicionais e A solução única.

Seguindo lógica similar, o grupo do Cinema Novo, e aí incluímos Dahl, também tinha a ideia de que a revolução socialista seria o próximo passo no desenvolvimento da história brasileira. Os filmes da primeira fase refletiram esta tendência, mostrando o caminho que o povo e seus líderes revolucionários deveriam seguir para atingir este objetivo.

Porém esta ideia quase certa de revolução entra em crise após 1964, com o golpe militar. O cinema insere-se na chamada crise da história, como define Ismail Xavier: “Rompe-se a teleologia, vetor tão definido da história, a certeza da revolução.” Tudo o que era esperança no sentido claro da história agora é desencanto, agonia. Assim, o Cinema Novo entraria em sua segunda fase, de crítica às esquerdas que praticamente nada fizeram para impedir que tal tragédia, como era visto por este grupo, se concretizasse. Insere-se plenamente neste contexto o filme aqui estudado.

Acreditamos que o silêncio e o suicídio de Miguel no final do filme diz muito sobre a falta de liberdade de expressão e as poucas saídas que restavam a esta juventude, que tanto desejo e empenho apresentou para discutir e debater um novo modelo para a comunicação pelo cinema com a massa no Brasil, após o golpe militar de 1964. O desencanto, a agonia.

O conjunto destes textos e o filme revelam um jovem com vontade de mudar a ordem vigente através do cinema, e com ele obter contato com as massas, atendo-se principalmente à crítica ao modo como estão dadas as regras que ditam o jogo do mercado de produção, distribuição e exibição de filmes. O que varia são suas estratégias sobre como e de qual público deveria o cineasta brasileiro se aproximar. Em certos momentos prega o diálogo com a maioria através de um cinema industrial e bem estruturado, em outros prega um cinema mais político. Não que sua vontade não fosse a de que este cinema ideológico pudesse alcançar a massa, mas mostra-se consciente da dificuldade, ou mesmo impossibilidade, disto.

Bibliografia

AUTRAN, Arthur. As concepções de público no pensamento industrial cinematográfico. In: Revista FAMECOS, Porto Alegre, n. 36, agosto de 2008.



BERNARDET, Jean-Claude. O autor no cinema. São Paulo, Brasiliense / Edusp, 1994.



DAHL, Gustavo. Compreensão da nouvelle Vague. Cinemateca Brasileira. Pasta D 244/3. [196?], 7 p. datilografado.



_______. Algo de novo entre nós. In: O Estado de São Paulo, out. 1961. Suplemento literário.



_______. A solução única. In: O Estado de São Paulo, out. 1961. Suplemento literário.



_______. Cinema Novo e estruturas econômicas tradicionais. In: Revista Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, ano 1, n. 5-6, mar. 1966.



_______. Cinema Novo e seu público. In: Revista Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, n. 11-12, dez. 1966 / mar. 1967.



RAMOS, Fernão (org.), História do cinema brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1987.



Recontre avec le Cinema Nôvo, in: Cahieres du cinéma, Paris, n. 176, mar. 1966.



XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro moderno. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2006.