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  Título
Pontos de escuta e arranjos audiovisuais na ficção e no documentário
Autor
Leonardo Alvares Vidigal
Resumo Expandido
Ponto de escuta é um conceito ambivalente e complexo, trabalhado por teóricos como Michel Chion, Rick Altman e François Jost como uma maneira de explicitar um contradiscurso como alternativa real ao predomínio da análise de elementos visuais na teoria de cinema e audiovisual. É um conceito que merece ser investigado e interpelado, além de combinado com outras possibilidades, como forma de se avançar teoricamente. Partindo do princípio de que cada filme pede uma atualização da teoria (Jean-Louis Comolli), este artigo irá procurar se debruçar sobre as diversas acepções e desdobramentos teóricos do ponto de escuta.

Para tanto, o conceito será confrontado com diversas obras de ficção tidas como realistas e filmes documentais onde a paisagem sonora (Schafer, 1992) se torna arranjo audiovisual, ao ser montada e se integrar ao ambiente acústico do ouvinte (Vidigal, 2008). Tais obras apresentam uma alta expectativa de veracidade que as torna particularmente férteis para essa análise. A forma como o som se articula com a imagem se dá a ouvir como um elemento eloquente de diferenciação entre filmes de cunho ficcional e documental, notadamente no cinema sonoro pós-1960, após o som direto ter se disseminado entre realizadores de todas as vertentes. Isso porque, mesmo preservando boa parte do elemento sonoro gravado diretamente, no cinema ficcional geralmente o som é trabalhado de forma a preservar a clareza de sua organização em camadas de voz, ruídos e música, enquanto que no filme documental há quase sempre uma única gravação direta (Ruoff, 1991).

Michel Chion fez uma distinção entre o sentido espacial do ponto de escuta, que localiza a fonte sonora, e o sentido subjetivo, que situa o espectador/ouvinte em relação ao que cada personagem está ouvindo. Apesar de derivado do conceito de ponto de vista, o ponto de escuta não guarda uma relação de correspondência estrita com seu originador, principalmente porque nem sempre é possível determinar a posição exata de uma fonte sonora (1994). Geralmente a expectativa de veracidade é mais atendida quanto mais o ponto de vista coincide com o ponto de escuta, tanto no aspecto espacial quanto no aspecto subjetivo.

Alguns filmes são particularmente ricos para o estudo do ponto de escuta. Sala de Música (1957) é um filme de Satyajit Ray onde as relações entre os personagens se definem também pelas articulações e alternâncias entre os pontos de escuta, tomando a música tradicional performada na Índia setentrional como base, fazendo fluir pelas camadas sonoras tanto os concertos de grandes instrumentistas, cantores e dançarinas no salão que dá nome ao filme, quanto a música cuja fonte não é explicitada. Esta pode ser semelhante à tocada e cantada nos três concertos apresentados no filme ou ser mesclada com formas musicais “ocidentais”, modificadas para amplificar o senso de estranhamento (como uma peça de Sibelius tocada de trás para frente). Assim, a “diegeticidade" do elemento musical está sempre em crise.

Outro filme importante nesse estudo é Land of look behind, documentário realizado na Jamaica com os negativos e fitas de rolo que sobraram da filmagem de Fitzcarraldo, de Werner Herzog, dirigida pelo produtor deste filme, Alan Greenberg. A partir de uma comunidade no interior da ilha, musicada por teclados etéreos semelhantes aos de Fitzcarraldo, esse ponto de escuta subjetivo do realizador, herdado de sua condição de origem, vai se modificando para incorporar a escuta dos jamaicanos, até chegar na capital, Kingston, onde mostra concertos de artistas de reggae. A equipe é surpreendida pelo falecimento de Bob Marley, dedicando a última parte do filme a documentar o enterro da maior estrela desse gênero musical, dirigindo os microfones para a população expressar tal perda.

Canções, falas e ambiências compõem uma paisagem sonora que se relaciona com o território filmado e musicado de diversas maneiras. Desse modo, os arranjos audiovisuais e pontos de escuta podem ser atualizados teoricamente.
Bibliografia

Altman, Rick. Sound Space. In: Altman, Rick (org.).Sound Theory/Sound Practice. Nova Iorque: Routledge, 1992.

CHION, Michel. Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia University Press, 1994

______. Film, a sound art. New York: Columbia University Press, 2009

MAJUMDAR, Neepa. The embodied voice: song sequences and stardom in popular Hindi cinema. In: Wojcik, Pamela Robertson e Knight, Arthur (orgs.). Soundtrack Available: essays on film and popular music. Londres: Duke University Press, 2001.

REDNER, Gregg. Deleuze and Film Music. Bristol: Intellect, 2011.

RUOFF, Jeffrey. Conventions of Sound in Documentary. In: Altman, Rick (org.). Sound Theory/Sound Practice. Nova Iorque: Routledge, 1992.

SCHAFER, Murray. O ouvido pensante. São Paulo: UNESP, 1992.

VIDIGAL, Leonardo Alvares. ’A Jamaica é aqui’: arranjos audiovisuais de territórios musicados. (Tese de Doutorado). Departamento de Comunicação Social, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, UFMG. Belo Horizonte:UFMG, 2008.