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  Título
A contra-cultura norte-americana retratada em Walden, de Jonas Mekas
Autor
Priscyla Bettim
Resumo Expandido
O objetivo dessa comunicação será o mapeamento da cena artística captada por Jonas Mekas, em Walden: diaries, notes and sketches (1969), bem como a análise da forma experimental como o cineasta registra esses momentos, registrando boa parte da contracultura americana do período, principalmente os artistas de Nova York.

Nascido na Lituânia em 1922, Jonas Mekas deixou seu país devido às perseguições alemãs durante a 2° Guerra Mundial. Mudou-se para Nova York em 1949, onde duas semanas depois comprou sua primeira câmera, uma Bolex 16mm, já iniciando a registrar cenas de seu cotidiano. Mekas começa então a ter um grande envolvimento com a cena underground da cidade, se tornando uma espécie de mentor e militante de um cinema livre, que mais tarde iria se configurar com o New American Cinema.

Funda em 55, juntamente com seu irmão Adolphas, a revista Film Culture, que se consolidaria como uma das mais importantes revistas norte-americana sobre cinema, e onde ele e outros críticos e cineastas tinham liberdade para expor suas ideias. A partir de 1958, através da sua coluna sobre cinema no Village Voice, intitulada Movie journal, Mekas faz publicações que combatiam ferozmente o cinema comercial e a crítica estagnada dos grandes jornais.

Walden: diaries, notes e sketches é seu primeiro filme diário, e conta com imagens captadas no período de 1964 à 1969, organizadas em seis rolos de trinta minutos cada, e se desenvolve de acordo com as estações do ano. O projeto inicial de Mekas era um filme que nunca terminaria, chamado apenas de Diaries, notes e sketches, mas por problemas de identificação no laboratório de revelação, foi adicionado o nome “Walden”. Walden, ou a vida nos bosques (1854), é o título do livro autobiográfico do escritor transcendentalista Henry David Thoureau, um manifesto poético anti-industrialista, que propõe o retorno ao simples. Narra a experiência de vida do escritor ao se exilar numa floresta em 1845, onde constrói com suas próprias mãos sua casa e seus móveis.

Pode-se dizer que de modo semelhante foi filmado Walden: diaries, notes e sketches. Sem equipe, sem se inserir no esquema industrial do cinema hegemônico, que predominava na época e predomina até hoje. O filme nasce de forma orgânica, na qual Mekas capta com sutileza imagens cotidianas e as organiza livremente na montagem, concebendo uma espécie de filme-poema.

Nas imagens captadas por Mekas em Walden, nos deparamos com poetas, escritores, cineastas, etc., que faziam parte desse universo underground. O “eu” se faz presente como ponto de partida, para que Mekas registre todo o ambiente artístico de vanguarda dos anos 1960 em Nova York e nos EUA. Sendo assim, suas imagens contam com características documentais, que são expostas sob a ótica pessoal do autor.

As lentes da Bolex 16 mm de Mekas registram diversas expressões artísticas e formas de linguagem ligadas à contracultura, filmando várias pessoas e manifestações de arte, como a música (The Velvet underground, John Lennon), o teatro / performance (The Linving Theatre), as artes plásticas (Andy Warhol, Yoko Ono), a poesia / literatura (Allen Ginsberg), o próprio cinema (Brakhage, Kubelka, Markopoulos), etc.

Vemos exemplos da forma pessoal e experimental que é feito esse registro na sequência em que visita a casa de Timothy Leary, construindo uma espécie de poema audiovisual lisérgico, uma evocação psicodélica ao LSD, mesmo sem mencionar tal substância em momento algum. Outro exemplo é a sequência em que filma uma passeata a favor da paz, com a presença de Ginsberg (entre outros), e ao som de música Hare Krishina, formando um mantra audiovisual através de rápida sucessão de imagens e do emprego da técnica do single-frame.

Nessa perspectiva, encontramos no pensamento de Jonas Mekas e na construção de seu filme uma ampla celebração da vida, arte, cinema e música; todo o cenário das artes de Nova York convergindo em suas imagens.

Bibliografia

CHODOROV, Pip; LEBRAT, Christian. Le livre de Walden. Paris: Paris Expérimental, 2009.



JAMES, D. E. (org.). To free the cinema: Jonas Mekas and the New York underground, Princeton University Press, NJ, 1992.




ODIN, Roger (org.). Le film de famille, usage prive, usage public. Paris: Méridiens-Klincksieck, 1995.



RAMOS, Fernão. Mas afinal... O que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.



RENAN, Sheldon. Uma introdução ao cinema underground. Rio de Janeiro: Liador, 1970.




RENOV, Michael (org.). Theorizing documentary. Nova York: Routledge, 1993.




SITNEY, P. Adams. Visionary film – the american avant-garde 1943 – 2000. EUA: Oxford USA Trade, 2002.



STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas-SP: Papirus, 2006.



TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Documentários em primeira pessoa? In: Catani, Afrânio Mendes (org.). Estudos Socine de cinema, Ano V. São Paulo, Editora Panorama, 2004.