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  Título
O star system do cinema de bordas: representação e identidade
Autor
Douglas Domingues
Resumo Expandido
No cinema de bordas, a criação de identidades está ligada a um jogo lúdico de figuração, onde todo mundo pode representar. Usando amigos e parentes como elenco, os realizadores trabalham ludicamente identidades midiáticas através de seus filmes. Dessa maneira, a capacidade dramática pouco importa, já que os realizadores exploram as similaridades e ambiguidades entre identidade real e os personagens que eles interpretam. Partindo dessa constatação, podemos dizer que a produção que chamamos de bordas inventou uma espécie de star system.

Algumas atrizes desse star system de bordas criaram figurações que se confundem com o gênero ou conjunto de gêneros que os filmes apresentam. Até o momento, quatro principais “musas” tem essa características: Gisele Ferran, da Canibal Filmes de Peter Baiestorff, Oldina do Monte, da Necrófilo Produções de Felipe Guerra, Kika de Oliveira, da Fábulas Negras de Rodrigo Aragão e Mariana Zani, da Recurso Zero de Joel Caetano. Essas são atrizes-fetiche para esses realizadores, elas dão forma e identidade às narrativas projetadas pelos cineastas.

No âmbito das sociabilidades locais, essas estrelas catalisam processos de reconhecimento, identificação e projeção com os espectadores recorrentes, que ajuda a modelar e cristalizar um “capital cultural de bordas”.

O cinema de bordas circunscreve um tipo de produção, realização e exibição que oscila entre a cultura popular e a cultura midiática. Os filmes desse cinema são feitos artesanalmente por realizadores cinéfilos, com baixíssimos orçamentos, e se concentram em histórias de ficção que se encaixam perfeitamente no universo dos gêneros cinematográficos, atualizando-os e remixando-os, se aproveitando de situações e cenas já vistas na cultura pop.

Essa apropriação que o cinema de bordas faz do chamado cinema industrial implica não só em imitação, mas também em recontextualização e nova criação, estabelecendo valores distintos, criando assim um “capital cultural” de bordas.

Os filmes de bordas são originalmente criados para serem exibidos em seu local de produção e para um consumo local. Mais recentemente, essa produção que é chamada de bordas evoluiu para uma troca entre os realizadores, em espaços dedicados ao cinema de gênero, como festivais e mostras de nicho. O número crescente de espaços de exibição como estes e a persistência de realizadores com uma produção mais constante construíram um espaço de familiaridade com o público.

Bibliografia

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CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas. São Paulo: Cultrix, 2002.



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SANTANA, G. Cinema de bordas 2. São Paulo: a lápis, 2008.