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  Título
Imagens recuperadas e a propaganda virada ao avesso em Yellow Caesar
Autor
Guilherme Bento de Faria Lima
Coautor
Andrea França Martins
Resumo Expandido
Antonio Weinrichter em seu livro Metraje Encontrado traça um panorama diferenciando os filmes documentais daqueles elaborados através de compilação. Aponta a existência de um grupo de obras que escapam da classificação feita por Bill Nichols do cinema documentário, obras de compilação que permanecem excluídas desta linhagem institucionalizada como documentário.

Justamente por isso, compilações elaboradas com imagens de arquivo ao longo sobretudo da II Guerra Mundial – afinal, como aponta Jay Leyda, até quase o final da I Guerra Mundial o valor de propaganda de compilações de atualidades tinham sido pouco testados – não são, na sua maioria, inseridas em livros que propõem investigar os procedimentos estéticos e as formas de linguagem dos documentários. No entanto, Jay Leyda aponta o filme Yellow Caesar, de Alberto Cavalcanti, feito a partir de imagens já existentes do ditador, imagens de propaganda, como a crítica mais penetrante feita à Mussolini, mais penetrante até mesmo do que qualquer outro filme que tenha sido feito contra Hitler.

Essa afirmação de Leyda parece apontar para a descoberta, por Cavalcanti, ainda durante a II Guerra, da impossibilidade de crença na verdade da imagem, da necessidade de colocar em xeque a representação do poder, do mundo, da história. Se a imagem não é tudo, se ela não possui uma verdade absoluta, de acordo com George Didi-Huberman, o filme de Cavalcanti parece nos dizer, através dos recursos às paradas, inversões de velocidade, ralentizações que, para extrairmos aprendizado da imagem é necessário que ela seja trabalhada e retrabalhada na montagem. Que é possível investigar em uma imagem de arquivo aspectos que, num primeiro olhar, passaram despercebidos ou não foram considerados relevantes.

Como Leyda aponta, Yellow Caesar talvez seja uma das obras elaboradas com imagens-documento, a partir dos filmes de propaganda, mais criativas deste período. Alberto Cavalcanti retoma imagens do ditador italiano para construir uma estrutura narrativa completamente antagônica ao propósito para o qual tais imagens foram inicialmente realizadas. Elabora uma crítica política contundente através do gesto estético de modificar e deslocar a natureza do discurso/imagem original.
Bibliografia

ADORNO, Theodor. O ensaio como forma. In: Notas de Literatura 1. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2003.

CAVALCANTI, Alberto. Filme e Realidade. Rio de Janeiro, RJ: Ed. Artenova, 1976.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Minas Gerais, BH: Ed. UFMG, 2008.

DIDI-HUBERMAN. Georges. Imágenes pese a todo. Madrid: Espasa Libros, 2004.

LEYDA, Jay. Films Beget Films. New York: Hill and Wang, 1964.

NINEY, François. Le documentaire et ses faux-semblants. Paris: Klincksieck, 2009.

______. L’épreuve du reel à l’écran – Essai sua le principle de réalite documentaire. Bruxelles: De Boeck Université, 2002.

RAMOS, F. Mas afinal... o que é mesmo o documentário?. São Paulo: SENAC, 2008.

WEINRICHTER, Antonio. Metrage Encontrado. La apropiación en el cine documental y experimental. Gobierno de Navarra, 2009.