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  Título
Construção dos afetos em Isto não é um filme
Autor
Thalita Cruz Bastos
Resumo Expandido
O documentário e a obra de ficção são formas de produção que se entrelaçam, na medida em que o primeiro acaba evidenciando o que tem de ficcional no registro do real, e o segundo os aspectos documentais que estão presentes na ficção. Essa contaminação entre estéticas antes vistas como opostas, resulta numa “produção audiovisual que confere às imagens uma consistência eminentemente híbrida” (TEIXEIRA, 2004, p.56). Dessa forma, enxergar o hibridismo da imagem é pensar a linha que separa documental de ficcional não apenas como tênue, mas talvez como ilusória e por isso mesmo, feita para ser ultrapassada. Ela existe devido a nossa necessidade de separar as coisas para compreendê-las melhor, mas a “realidade” não separa. Esta relação entre documentário e ficção pode ser observada na atualidade tanto na produção documental, quanto na ficcional, como por exemplo o Novo Cinema Iraniano, onde observa-se um nicho de produção extremamente rico e quem vem ganhando visibilidade nas últimas décadas.

A utilização de recursos estéticos que se aproximam das estratégias de realidade observadas tanto no neo-realismo italiano quanto no documentário contemporâneo nas produções iranianas exemplificam como é possível assumir o aspecto documental das obras de ficção. Esses filmes proporcionam, inclusive, o surgimento de uma relação afetiva entre a imagem e o espectador, não importando a sua localização geográfica, visto que os temas abordados fazem parte da vida cotidiana, como faziam as produções neo-realistas, e como trabalham os documentários contemporâneos.

O atravessamento existente entre documentário e ficção é dado a ver na produção iraniana contemporânea de forma diferenciada, na medida em que as estratégias de realidade utilizadas pelos cineastas funcionam menos como estruturadoras de um discurso sobre o real, e mais como forma de aproximar “realidades” culturais e sociais aparentemente distantes do espectador ocidental através de um engajamento afetivo do espectador. Diretores como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhamalbaf, Samira Makhamalbaf e Jafar Panahi são exemplos contemporâneos desse tipo de produção.

No que concerne o corpus desse trabalho, nossa proposta é analisar o documentário Isto não é um filme, de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb (2010), focando naquilo que o filme desperta no espectador enquanto engajamento sensório-sentimental, devido tanto a “performance” que o cineasta Jafar Panahi faz para a câmera quanto as questões por ele levantadas ao longo do filme. Essas questões combinadas ao uso da câmera e a relação espaço-temporal estabelecida pelo filme tanto dentro da sua estrutura narrativa quanto com a realidade política e cultural vivida pelo cineasta.

Nosso objetivo é compreender como ocorre a mobilização dos afetos dentro de um filme que diz de uma realidade e de uma forma de ver o mundo diferente da visão de espetáculo midiático a qual estamos habituados. E apesar de estar aparentemente distante dessa perspectiva, dialoga com ela intensamente já que faz uso dos recursos desenvolvidos pela estética do espetáculo, seja através dos usos da câmera e até mesmo pela necessidade da presença da mesma a fim de registrar um acontecimento privado e dar-lhe uma amplitude pública.
Bibliografia

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TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Eu é outro: documentário e narrativa indireta livre. In: ______. (Org.). Documentário no Brasil: tradição e transformação. São Paulo: Summus, 2004. p.29-67.