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  Título
Corpoeticidade e o audiovisual como suporte para a poesia performativa
Autor
André Telles do Rosário
Resumo Expandido
Nas últimas décadas assistimos a um redespertar da palavra falada como meio popular de expressão poética, através da performance. Desde os anos 70 e 80, recitais e torneios de poesia no Brasil e no exterior popularizaram e urbanizaram a poesia corporalmente compartilhada. A consolidação dos saraus de poesia no Brasil e da Slam Poetry nos Estados Unidos é exemplo das novas situações de comunicação no desenvolvimento desta arte milenar, focadas na corporalidade ancestral da poesia, na interatividade, na presença e nas redes: usando o corpo (e a voz) como suporte primordial de sua expressividade, junto com impressos e sites de baixo custo, e intensa produção videográfica.

Com o barateamento dos custos de produção audiovisual, muitos destes “corpoetas” são cada vez mais publicados em vídeos, além dos livros. Claro que o livro, o zine, o blog, a palavra para ser lida, são ainda estratégia e parte importante da expressividade destes autores. Mas acreditamos que mais e mais poetas performativos têm tido como meio de publicação o audiovisual.

Tal constatação é verdade para o caso da obra de Miró da muribeca, poeta das ruas e da palavra falada, expoente desta cena em Pernambuco hoje. Já descrito como um “camelô” da poesia, Miró vive de sua arte, ganhando pelas apresentações em eventos, mas principalmente através da venda de livretos e impressos de baixo custo – e, mais ultimamente, também, da venda dos dois curtas documentários que foram feitos sobre sua obra, comercializados em formato DVD.

O segundo audiovisual, Miró: preto, pobre, poeta e periférico, dirigido por Wilson Freire, da Cabra Quente Filmes, é o objeto deste estudo. O curta lançado em 2008, em Recife, é o ponto a partir de onde pretendemos compreender como esta poesia performativa é traduzida para o meio audiovisual.

E para tanto, aplicaremos o conceito corpoeticidade para exercer a leitura das relações entre performance, poesia performática e audiovisual no curta de Wilson Freire. Desenvolvido pelo autor do presente trabalho em sua dissertação de mestrado, o neologismo corpoeticidade é a junção de três termos centrais na expressão poética performativa contemporânea: Corpo, poética e cidade. Três substantivos que se desdobram em três dialéticas: a poesia no corpo; o corpo na cidade; e a cidade na poesia.

Na primeira, a poesia no corpo, são observados os traços de performatividade nesta poesia, ou seja, a forma com que o corpo modula as manifestações do poema. Esta performatividade pode ser percebida em três níveis:

1. nas apresentações do poeta, a performance propriamente dita, e seus elementos como a voz, o gestual, a indumentária, o local, a ocasião, etc...;

2. na linguagem e no estilo que o poeta usa, conformados para serem ditos em vez de escritos; e

3. nos impressos, confeccionados com planejamento visual diferenciado (e em parcerias com diagramadores profissionais).

Com a segunda das dialéticas, o corpo na cidade, busca-se retratar a subjetividade que habita seus poemas. Quais as fronteiras para a movência e para o usufruto da urbe por esse indivíduo descrito em sua poesia: a cor, a classe e a intimidade do habitante que é o ponto de vista das imagens de suas invenções.

E na terceira, a cidade na poesia, observa-se o sentimento geográfico que viaja com os versos. Como as representações culturais geográficas locais tradicionais (principalmente da cidade, mas também da região e da nação) são construídas e reinventadas em poemas seus.

No caso da análise videográfica, veremos como as três dialéticas foram traduzidas. Nosso recorte serão os poemas de Miró presentes no vídeo. Observando como a performance é registrada no vídeo, e como seus elementos são alterados em relação à performance presencial do poeta – mas também quais imagens da cidade e quais relações de afiliação geográfica cultural estão presentes no curta.

Bibliografia

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GLUSBERG, Jorge. A arte da performance. São Paulo : Perspectiva, 2005.



GOLDBERG, RoseLee. A arte da performance. São Paulo : Martins Fontes, 2006.



HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1997.



HOLLANDA, Heloísa Buarque. Impressões de viagem. São Paulo : Brasiliense, 1980.



MARCUSCHI, Luiz Antônio. Linguagem e classes sociais – introdução crítica à teoria dos códigos linguísticos de Basil Bernstein. Porto Alegre : Movimento e Editora da UFRGS, 1975.



MCLUHAN, Marshall & FIORE, Quentin. The medium is the massage. Gingko Press : New York, 1967 (2001).



MORAES, Antonio Carlos Robert. Ideologias geográficas. Espaço, cultura e política no Brasil. São Paulo : Hucitec, 2002.



ROSÁRIO, André Telles. Corpoeticidade: a literatura performática do poeta Miró. Programa de Pós Graduação em Letras, UFPE. Recife, 2007.



ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo : EDUC, 2000.