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  Título
O filme como fonte de análise social
Autor
SUELY DOS SANTOS SILVA
Resumo Expandido
O filme Cinema, aspirinas e urubus é um drama do gênero Road Movie, contém os dois principais elementos desse tipo de película; a) deslocamento das personagens de carro/caminhão/motocicleta e b) a interculturalidade. Para Brandão (2010, p. 04) “Em terras brasileiras, o gênero, adequadamente traduzido como ‘cinema de estrada’, será tratado, por exemplo, por Adalberto Müller, para quem o filme Cinema, aspirinas e urubus de Marcelo Gomes reedita e renova o gênero, por aqui”.

Filmado na cidade de Cabaceiras – Paraíba/Brasil no ano de 2003, para Andrade (2008), a chamada “Roliúde nordestina” foi até 2008, cenário total ou parcial de 18 filmes, o primeiro deles O alto da compadecida gravado em 1998.

Quanto ao gênero segue “uma nova espacialidade cinematográfica, feita de dispersões, deslocamentos, nomadismos, com seus personagens em contínuo fluxo de deslocamentos e transformações internas e externas.” (FECHINE e MANSUR, 2008, p. 01). A “busca” do espaço geográfico que garanta exercer a alteridade e estruturar a identidade a partir dessa “evolução” subjetiva e espacial, parece assegurar aos personagens, a existência.

O filme retrata três brasis; i) o do desenvolvimento e progresso São Paulo ii) o dos nordestinos do sertão, como sinônimo de; seca, fome, atraso e desesperança, iii) e a Amazônia para onde vai parcelas empobrecidas.

A pobreza leva os personagens a fugirem do lugar, especialmente as mulheres. Sobre a segregação da mulher, XAVIER (2006) afirma, ela pode variar na forma, mas é o espectro regional da questão da condição também neste caso, da mulher nordestina como posição social subalterna. Relatos de viagem de um nordestino usados para elaborar o enredo servem como material de compreensão do real da política econômica e social segregadora utilizada no Brasil.

Nas personagens ocorrem personificações e encarnações de forças sociais em conflito que no limite, não assegura lugar para todos, especialmente aos jovens.

Conclusões

Ao final, Johann da à Ranulpho o caminhão e segue de trem “disponibilizado” pelo governo brasileiro para levar os “retirantes miseráveis”. O mapa temático (passado/presente, arcaico/moderno) e geográfico (local/global) traçado pelos deslocamentos mostra a intenção dos personagens, que são antes de qualquer coisa, “passageiros” procurando o seu lugar.

O filme é veículo de (in) formação para se apreender a realidade social e é acesso ao conhecimento e conduz o espectador a outros saberes. “O encontro de Johann e Ranulpho surge, portanto, para o espectador, como algo insólito, mas perfeitamente plausível. (...) o encontro de um alemão instruído e um sertanejo esperto, ambos aventureiros”. (MULLER, 2006, p. 03)

O filme evidencia: 1) as disparidades regionais do Brasil, os três brasis que não dialogam; 2) as diferenças de perspectivas sociais e individuais em decorrência do gênero; 3) o enfraquecimento das lutas coletivas que se aprofundou nos anos de 1990, mas que já estavam presentes em 1942; 4) o esgotamento da expectativa do Brasil ser o país das oportunidades.

Bibliografia

ANDRADE, Vivian Galdino de. Roliúde Nordestina - um cenário de formação dos sujeitos. Revista de histórias e Estudos Culturais. V. 5 ano V n. 1 Jan/fev/mar , 2008.



BRANDÃO, Ludmila. (2008). Rumores de uma vida mundializada: reflexões sobre o filme Histórias mínimas. Revista Galáxia, n. 19 p 105-120, São Paulo, 2010.



FECHINE, Yvana & MANSUR, Amanda. O road movie nas rotas de fuga do árido cinema Pernambucano. XI Congresso Internacional da ABRALIC. São Paulo, 2008.



MÜLLER, Adalberto. Cinema (de) novo, estrada, sertão: notas para (se) pensar Cinema, aspirinas e urubus. Logos 24: cinema, imagens, imaginário. Ano 13 número 24. Rio de Janeiro: UERJ. 2006.



XAVIER, Ismail. Campo de migrações: Fabiano, Manuel e Ranulfo e os anônimos do sertão. Revista Significação. Escola de Comunicação e Arte ECA/USP. 2006.



Filmografia



Cinema, aspirinas e urubus. 2005. Diretor Marcelo Gomes.