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  Título
Do Horror ao extremo - o excesso na obra de Park Chan-wook
Autor
HUMBERTO LIMA SALDANHA MAGALHÃES SILVA
Resumo Expandido
Em uma das cenas do filme Oldboy (idem, 2003), do cineasta sul-coreano Park Chan-wook, o protagonista Oh Dae-su encontra o prédio onde ficou preso durante quinze anos. Com um martelo de bater pregos arranca os dentes de um homem que se recusa a explicar-lhe o motivo de sua prisão. São tirados um a um, em espaços de tempo suficientes para a degustação da dor. Ao som da música “As quatro estações”, de Vivaldi, cria-se uma sequência com muita tensão e ao mesmo tempo angustiante.

Essa descrição, embora breve, nos deixa a par de um dos aspectos presentes na maior parte do universo cinematográfico de Park Chan-wook: a violência em seus aspectos mais extremos. Ao estar em constante dialogo com aspectos do hiper-realismo, do gore e da estética trash, a obra do cineasta oferece ao espectador um espetáculo sensorial, capaz de incitar algumas respostas sensoriais e físicas no âmbito da apreciação, como a repulsa e o horror.

Neste trabalho, nosso objetivo é compreender como essas cenas brutais presentes nos filmes do diretor se articulam a partir da noção de excesso cinematográfico, conceito definido pela pesquisado Kristin Thompson (1999), como aqueles aspectos plásticos, que estão em demasia no filme, ou seja, são, em certa medida, descartáveis, uma vez que sua presença ou ausência não prejudicam em nada o entendimento da narrativa. No caso de Oldboy, temos como exemplo as imagens de violência extrema, as emoções exageradas dos personagens, o uso da música de modo excessivo, a presença intensa de cores e texturas, dentre outros elementos.

Porém, ao contrário de Kristin Thompson, que enxerga o excesso como algo sem função na narrativa, defendemos que este elemento pode ser compreendido a partir do modo como o filme se estrutura para relatar história. Acreditamos que ele está presente tanto no modo como a trama se constrói, como na manipulação estilística dos elementos da linguagem e da técnica cinematográficas. Defendemos, portanto, a hipótese de que a manipulação do excesso é algo proveniente das escolhas estilísticas do diretor do filme e que representa uma parte considerável de uma obra cinematográfica.

Mediante tal perspectiva, nos debruçaremos sobre como a narrativa constrói o excesso característico, especificamente do horror, do gore e do terror em três filmes de Park Chan-wook, a saber: Sympathy For Mr. Vengeance (Boksuneun Naui Geot, 2002), Oldboy e Sympathy For Lady Vengeance (Chinjeolhan Geumja-si, 2005). Para tanto, perpassaremos pelas teorias dos gêneros cinematográficos, a partir da perspectiva histórica defendida por Rick Altman (2000) e da ideia de tensionamento dos gêneros em determinados contextos de recepção, conforme discute Raphaëlle Moine (2008). Vale ressaltar que não estamos defendendo a inserção do corpus em uma determinada convenção genérica, apenas afirmando que este dialoga com aspectos de uma determinada convenção.

Para a análise das obras, utilizaremos como perspectiva metodológica a ideia defendida por David Bordwell (1986, 2008) a respeito do estilo, entendido pelo autor como a sistematização de elementos da linguagem e da técnica cinematográfica. Do outro lado, recorremos à Noël Carroll (1999), para compreendermos como os efeitos emocionais são construídos nos filmes e consequentemente provocam uma reação física no espectador que aprecia uma obra audiovisual.

A razão que justifica o estudo da obra de Park Chan-wook, em detrimento de outros cineastas, relaciona-se a um dos objetivos desta pesquisa: averiguar como o excesso se manifesta dentro de um contexto cultural determinado, a saber, o cinema da Coreia do Sul, que tem recebido destaque considerável no ocidente e tem chamado a atenção pelo seu poder artístico e econômico (SHIN e STRINGER, 2005;CHOI, 2010). Dentro desse cenário, Park é considerado um dos diretores mais relevantes da produção contemporânea do país e, graças a isso, tem recebido distinção e notoriedade pela crítica, público e pesquisadores (Bourdieu,1996).

Bibliografia

ALTMAN, Rick. Los géneros cinematográficos. Barcelona, Buenos Aires e México: Paidós, 2000.



BORDWELL, David. La narración en el cine del ficción. Buenos Aires e México: Paidós, 1996.



_________, David. Figuras traçadas na luz – a encenação no cinema. Campinas – SP: Papirus, 2008.



BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.



CARROLL, Nöel. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas: Papirus, 1999.



CHOI, Jinhee. The south korean film renaissance: local hitmakers, global provocateurs. Middletown: Wesleyan University Press, 2010.



MOINE, Raphaëlle. Cinema genre. Wiley-BlackwellPublishing, 2008.



SHIN, Chi Yun e STRINGER, Julian (orgs.). New korean cinema. New York: New York University Press, 2005.



Thompson, Kristin. The concept of cinematic excess. From Braudy, Leo, and Marshall Cohen. Film theory and criticism: introductory readings. New York: Oxford University Press, 1999, 513-524