/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A vida em fragmentos de memória no documentário As praias de Varda
Autor
Rúbia Mércia de O.Medeiros
Resumo Expandido
“Hoje, crio imagens que habitam em mim há muito tempo.”

A proposta busca analisar a escrita de si no documentário As praias de Agnes (2009). Pontuando nesta obra a relação que se dá na construção do próprio autor como personagem. Explanando a partir da obra de Agnès Varda a relação que há entre a auto-mise-en-scène e encenação, teoria proposta por Jean-Luis Comolli, e principalmente como o personagem do documentário, neste caso, a própria realizadora, se reinventa na obra. Pontuando também a diferença e aproximação no que envolve a relação de autobiografia e autorretrato na tentativa de identificar como se dá a articulação dos elementos temporais (passado-presente-futuro) na montagem do documentário. Nota-se que a memória inscrita em filmes autobiográficos e filmes que falam de uma micro política do universo cotidiano do autor se configuram de forma múltipla a partir do discurso com que a cineasta, neste caso Agnès Varda interpreta seus relatos íntimos na obra.

Dessa forma, o pesquisador Bill Nichols (2008, p. 90) nos sugere acerca da reconstrução de um discurso através da memória que se constrói plano a plano: teatro da memória, onde o discurso se memoriza na simples força de vontade para lembrar o que foi dito. O tempo é diferenciação, continuidade, descontinuidade, heterogeneidade, por onde se constitui diversas temporalidades. Mas também é singular e homogêneo, pois estabelece relação com o real de cada indivíduo ou coisa, portanto, estabelece uma conexão direta com o filme, onde cada participante está unicamente em seu universo inserido num espaço e num tempo. Através dos espelhos, Varda vê seu reflexo e todos os anos que antecederam àquele momento, no filme a cineasta retrata um passado que foi ontem, mas é passado. É na performance da realizadora que o filme ganha uma segunda dimensão de significação e proximidade entre a auto- mise-en-scène e os esboços de sua vida privada.

O filme se desenvolve numa cadência entre a vida real, narração desta e a reconstituição de alguns fatos do passado. Dentro do filme, a diretora conta a sua história, explora o seu passado, desloca-o para o presente, se reinventa na própria lembrança. Raymond Bellour (1997, p. 323) nos esclarece a aproximação e distanciamento que existe entre a noção de autobiografia e autorretrato, ao afirmar que o autorretrato se diferencia da autobiografia pela ausência de uma sequência narrativa, já que no autorretrato a narrativa está subordinada a um desdobramento lógico que se mantém graças a uma organização ou a uma bricolagem de elementos dispostos de acordo com uma série de rubricas que podemos denominar como “temáticas”, se aproximando mais de uma linguagem metafórica e poética, e menos da narrativa. O autorretrato se constitui como lembranças retomadas, superposições de tempos e a correspondência entre elementos que se justapõem na linha do filme. Contudo, é nesta hibridização e fricção entre autobiografia e autorretrato que os filmes se inserem em nossos estudos como zona de compartilhamento entre as formas.

Nesta ligação da prática autorreferente e da autobiografia, a tensão entre registrar e criar realidades, entre objetividade e subjetividade, documentário e imaginação se configura como parte das narrativas em primeira pessoa, que elaboram formas de recriar o cotidiano e torná-lo objeto de sua criação artística. Deste modo, são maneiras diversas de olhar para a interioridade tornando o que é da esfera íntima algo que se transmuta para uma esfera exterior, voltando-se para o fora, para o público e para o horizonte contemporâneo das formas de visibilidade do sujeito. As formas autobiográficas e ensaísticas no documentário descrevem como estes trabalhos fílmicos dialogam com uma escrita pessoal e em primeira pessoa, pontuando suas conexões através de linhas de aproximação entre imagens e palavras, desencadeando no fluxo do processo fílmico e discursivo o lugar do autor dentro das teias de redes que interligam autor-personagens, o outro e o espectador.

Bibliografia

ASTRUC, Alexandre. Nascimento de uma nova vanguarda: a Câmera-Stylo In: Nouvelle Vague. Lisboa: Cinemateca Portuguesa, Museu do Cinema, 1999.



ARFUCH, Leonor. O espaço autobiográfico. Dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: Ed. URFJ, 2010.



BELLOUR, Raymond. Entre-imagens. Luciana A. Penna (trad.). Campinas-SP: Papirus (Coleção Campo Imagético), 1997.



COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.



COMOLLI, Jean-Louis. Os homens ordinários, a ficção documentário. In: SEDMAYER, Sabrina; GUIMARAES, Cesar; OTTE, Georg (org). O comum e a experiência da linguagem. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007.



MIGLIORIN, Cezar (org). Ensaios do real. Rio de Janeiro-RJ: Beco do Azougue, 2010.



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. São Paulo: Papirus Editora, 2008.



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ediouro. 2005.



______. O espectador emancipado. Costa Netto. São Paulo: EXO Experimental e Ed.