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  Título
Um certo cinema brasileiro contemporâneo e sua crítica
Autor
Cyntia Araújo Nogueira
Resumo Expandido
A partir de algumas reflexões do teórico Boris Groys sobre a relação entre a arte contemporânea e a modernidade, em seu influente ensaio Camaradas do Tempo (2010), pretendemos analisar de que forma um certo cinema brasileiro contemporâneo e sua crítica se posicionam em relação à tradição crítica moderna do cinema brasileiro.

Considerando, junto com Groys, que “o nosso é um tempo no qual reconsideramos – não abandonamos, não rejeitamos, mas analisamos e reconsideramos – os projetos modernos”, pretendemos observar, a partir de discursos construídos em espaços críticos como as revistas eletrônicas Contracampo e Cinética, além da mostra de cinema de Tiradentes, como uma produção que vem sendo apontada como representativa de um cinema brasileiro contemporâneo "reconsidera", "retoma" ou "nega" o projeto do cinema moderno brasileiro e seus desdobramentos.

De acordo com Groys, na modernidade os projetos, programas e movimentos estavam interligados pela sua oposição uns aos outros. Mas agora, afirma, “eles podem e devem ser inteiramente reconsiderados”. Assim, a arte contemporânea é vista como arte que está envolvida na reconsideração dos projetos modernos:

“O presente deixou de ser um ponto de transição do passado para o futuro, tornando-se, em vez disso, um lugar de permanente reescritura tanto do passado quanto do futuro” (2010, p.122).

Considerando que a crítica produzida nesses espaços de mediação pública constrói um espaço de legitimação para si própria e para um conjunto de filmes que trazem afinidades estéticas, políticas e de modo de produção, pretende-se avaliar como a reescritura do passado tem contribuído para a compreensão de determinados valores e características que marcariam a produção e a reflexão sobre esse recorte do cinema contemporâneo brasileiro, bem como suas perspectivas de futuro no diálogo com novos espaços sociais e com o Estado.

Gostaríamos, assim, de colocar em questão em que medida essa produção e sua crítica retomam valores modernos em seus discursos ou ultrapassam esses valores, no que se refere aos seus aspectos estilísticos, seus modos de produção e circulação. Alguns aspectos serão especialmente considerados: 1) a revisão do discurso em torno da identidade e alteridade a partir, sobretudo, do documentário; 2) a inserção dessa produção num contexto de transformação das formas consolidadas pela modernidade de produção e consumo cultural; 3) o conceito de cinema independente e sua relação com a produção experimental na história do cinema brasileiro; 4) a relação com o Estado.

Para Groys, se a modernidade foi marcada pela explosão do consumo de massa, com impactos tão bem analisados por Walter Benjamin na esfera da produção artística, na contemporaneidade a questão que se coloca é a produção artística em massa.

Esse reposicionamento da questão é considerado aqui tendo em vista as especificidades da experiência da modernidade no Brasil e, em particular, no cinema brasileiro, tendo como referências pesquisadores que vem contribuindo de forma importante para sua revisão histórica, como Jean-Claude Bernardet, seja em Cinema brasileiro: propostas para uma história (2009) ou em sua Historiografia clássica do cinema brasileiro (1995), entre outros.

Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia clássica do cinema brasileiro. São Paulo: Annablume, 2008.



FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo: Max Limonad, Embrafilme, 1986.



GROYS, Boris. Camaradas do tempo. In: Caderno SESC videoBrasil, vol.6. São Paulo: Edições SESC SP: Associação Cultural Vídeobrasil, 2010.



HALLACK, Raquel; HALLACK, Fernanda (Orgs). Cinema sem fronteiras: 15 anos da mostra de cinema de Tiradentes. Reflexões sobre o cinema brasileiro 1998-2012. Belo Horizonte: Universo Produções, 2012.



IKEDA, Marcelo; LIMA, Dellani. Cinema de garagem: um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI. Belo Horizonte: SuburbanaCo, 2011.



NOGUEIRA, Cyntia. Crítica e cinefilia na internet: uma nova forma de cineclubismo?.In: Estudos de Cinema Socine VII. São Paulo: Annablume, 2006.



SCHWARZBOK, Silvia. Un arte de Estado. Cine y estéticas oficiales. In: Kilometro 111 – ensayos sobre cine, vol. 8. Buenos Aires: Santiago Arcos Editor, 2009.