/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Imagem, papel e notícia nos cinejornais da Atlântida e no Canal 100
Autor
Rodrigo Archangelo
Resumo Expandido
Lembrado como imagem e voz dos donos do poder, o cinejornal foi pouco utilizado para pesquisas históricas, embora possua grande potencial enquanto fonte para o estudo do passado. A multiplicidade de temas e abordagens que carrega e o imaginário do poder político – evidência primeira em suas representações – são suas maiores contribuições à compreensão das sociedades que representou. As manifestações políticas que noticiou recapitularam componentes da atividade social e cultural de toda uma sociedade nascida com a modernização dos meios de comunicação.

Tomamos como exemplo as séries Atualidades Atlântida (1942-1986) e Notícias da Semana (1945-1986), ligadas à Atlântida Cinematográfica, e o Canal 100 (1959-1986), da Carlos Niemeyer Filmes. Séries cuja completude só pode ser aproximada pela recomposição das imagens sobreviventes com os roteiros, textos de locução, mapas de distribuição, pautas de notícias e programas de salas, documentos correlatos que explicam a dinâmica de sua produção e as aproximações de seus realizadores com assuntos políticos, econômicos, sociais e culturais.

O cinejornal foi apresentado em formato de notícias, numa prática audiovisual que serviu a diferentes formas de regime político e representou sociedades diversas pelo mundo. No Brasil, estiveram presentes desde as primeiras décadas do século passado até os anos de 1980, e apresentaram um paralelo com a nossa história política. O utilitarismo político dos cinejornais, somado à fragilidade de um tipo de produção que atendeu aos interesses momentâneos de seus produtores, conferiu a esta categoria de cinema a pecha de registro superficial, subproduto do espetáculo cinematográfico, curta-metragem de baixa ou nenhuma qualidade. Por outro lado, eles representaram fatos, personalidades, gestos e acontecimentos históricos do país e do mundo, num caleidoscópio de notícias que foram levadas semanalmente às telas. Para um pesquisador interessado no século XX, tais notícias são fonte para uma releitura do passado por meio de representações do imaginário de época.

E nessa empreitada, a análise pede uma investigação com fonte audiovisual e papel, cujas lacunas, silêncios e contradições também indicam posicionamentos políticos e o inesperado do próprio contexto histórico. Observar atentamente esses documentos é essencial para reconduzir o conjunto das imagens em movimento ao contexto original de sua significação, sintonizá-las com o seu tempo e sua circunstância e entender como o cinejornal representou seu entorno em símbolos, signos e sensibilidades, muitas vezes mostrados como lugares da memória e do patrimônio sociocultural. Remontar sequências e ordenar as notícias que evidenciam os “rituais do poder”, disseminados nas efemérides e nos acontecimentos oficiais, também ajuda a descobrir que as coberturas “cinejornalísticas” se estenderam para outros aspectos da vida coletiva e articularam representações do político ligadas às esferas do econômico, social, cultural e artístico.

Além disso, colocaram seus realizadores e participantes de sua encomenda ao lado de acontecimentos e movimentos decisórios, das manifestações de poder em diferentes instâncias e campos de atividade. As informações contidas na documentação textual e nas imagens dos cinejornais Atualidades Atlântida, Notícias da Semana e Canal 100 dão uma ideia da contribuição que essa categoria de filme oferece à releitura de nossa história. Como um quebra-cabeças, suas fontes para pesquisa se articulam, se justapõem, e até o contraste entre eles revela significados; traços históricos sobressaem-se e jogam luz sobre essa atividade cinematográfica que antes da massificação da televisão era a crônica audiovisual da semana - muito embora atravessada pelas representações pertinentes aos interesses dos envolvidos em sua encomenda, porém atenta ao imaginário do público espectador, seu primeiro receptor.
Bibliografia

BAXANDALL, Michael. O Olhar Renascente: Pintura e Experiência Social na Itália da Renascença. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

CASTELNUOVO, Enrico. Retrato e Sociedade na Arte Italiana: ensaios de História Social da Arte. São Paulo: Cia. das Letras, 2006.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 2002.

FARGE, Arlette. O Sabor do Arquivo. São Paulo: EDUSP, 2009.

GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas e Sinais. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.

GOMES, Paulo Emílio Salles. A Expressão Social dos Filmes Documentais no Cinema Mudo Brasileiro. In: Paulo Emílio: um Intelectual na Linha de Frente. São Paulo: Brasiliense, 1986.

MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Fontes visuais, cultura visual, História visual. In: Revista Brasileira de História, São Paulo, n. 23, n. 45, 2003.

REMOND, René(org.). Por uma História Política. Rio de Janeiro: FVG, 2003.

SIRINELLI,Jean-François; RIOUX, Jean-Pierre (org.). Para Uma História Cultural. Lisboa: Editorial Estampa, 1998.