/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O devir-sensível do comum: afeto e política entre fotografia e cinema
Autor
Marcelo Rodrigues Souza Ribeiro
Resumo Expandido
A fotografia e o cinema podem ser compreendidos como marcos na história da sensibilidade humana que estão associados a transformações sociais (Benjamin, 1985; Déotte, 2004). Se a vida sensível que se partilha (Coccia, 2010; Rancière, 2005) é a condição de possibilidade de qualquer forma de vida, é porque o comum se articula apenas na medida de seu devir-sensível: as imagens que constituem a vida sensível condicionam as formas de consciência da comunidade, seja ela qual for. Ao compreender fotografia e cinema no marco de uma história da sensibilidade, torna-se crucial pensar suas relações com diferentes modos do devir-sensível do comum, isto é, com diferentes maneiras de (re)produção sensível do mundo, que se define assim como mundo comum apenas na medida em que assume alguma forma sensível, ou seja, na medida em que é imaginado.

Assim, o trabalho de imaginação (Appadurai, 1996) constitui as condições de aparecimento do mundo comum que delimita as fronteiras a partir das quais a vida toma forma e se torna imaginável. A fotografia e o cinema são aparelhos do trabalho de imaginação do comum, definindo-se pelos gêneros (genres) em que inscrevem suas coordenadas e pelos regimes de imaginação que delimitam para acolher o mundo. Em sua variável configuração histórica, os gêneros (genres) da fotografia e do cinema são atravessados por problemas de gênero (gender), uma vez que os modos de imaginação do comum que possibilitam e promovem estão associados a relações de olhar e de poder.

Na série Untitled Film Stills que Cindy Sherman produziu entre 1977 e 1980 (Sherman, 2003), encontra-se uma interrogação dos gêneros cinematográficos que marcam as estéticas ocidentais, especificamente no que diz respeito às formas de representação da mulher e de construção do olhar sobre as personagens femininas (Krauss, 1999; Mulvey, 1991; Portas, 2011). Dessa forma, Sherman coloca em questão, ao mesmo tempo, as formas cinematográficas de construção de identidade que remetem ao nome "mulher" (as questões da identificação e do estereótipo), os modos de configuração do olhar que o cinema põe em movimento em suas tessituras narrativas (as questões da experiência e da mediação) e os movimentos de delimitação do comum que se desenrolam a partir das imagens e das articulações que elas propõem, especificamente no eixo da diferença de gênero como diferença primordial (as questões da política e da partilha do sensível).

Ao compreender os Untitled Film Stills a partir do entrelaçamento desses três eixos interrogativos (identificação e estereótipo, experiência e mediação, política e partilha do sensível), torna-se crucial reconhecer, no cerne da obra de Sherman, o jogo diferencial em que fotografia e cinema se encontram co-implicados, desde seu surgimento, como tecnologias do afeto e aparelhos de (re)produção da vida sensível. É preciso pensar os diferentes modos pelos quais a fotografia e o cinema podem trabalhar a imaginação, (re)produzindo o mundo comum a partir do fundamento contingente da vida sensível, isto é, da vida das imagens. Entre as estéticas e as éticas da fotografia - que se cindem amplamente entre documento e expressão (Rouillé, 2009) - e as estéticas e as éticas do cinema - que se cindem amplamente entre transparência e opacidade (Xavier, 2005) - os Untitled Film Stills lançam os fios corrosivos de seus simulacros que se parecem memórias, de suas superfícies que se parecem com histórias, de suas máscaras que revelam um vazio, um espaço em branco em que nenhuma narrativa, nenhum fechamento, nenhuma presença pode se instalar. Um espaçamento feito de vestígios, de traços, de rastros, o espaçamento do afeto puro, imperceptível e inconcebível a não ser como negatividade pulsante, como pulsão anarquívica diante da vida sensível, da vida das imagens. A partir dessa pulsão, o que se abre é o devir-sensível do comum como campo experimental e experiencial.
Bibliografia

APPADURAI, Arjun. Modernity at large. Minneapolis e Londres: University of Minnesota Press, 1996.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

COCCIA, Emanuele. A vida sensível. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie, 2010.

DÉOTTE, Jean-Louis. L’époque des appareils. Paris: Éditions Lignes & Manifestes, 2004.

KRAUSS, Rosalind. Bachelors. London, Cambridge: The MIT Press, 1999.

MULVEY, Laura. 1991. A Phantasmagoria of the Female Body: The Work of Cindy Sherman. New Left Review, 1 (188): 1991, p. 137-150.

PORTAS, Danusa D. Cindy Sherman: uma criptografia corpórea. Visualidades, 9 (1): 2011, p. 199-227.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. São Paulo: Ed. 34, 2005.

ROUILLÉ, André. A fotografia: entre documento e arte contemporânea. São Paulo, SENAC, 2009.

SHERMAN, Cindy. The Complete Untitled Film Stills. New York: The Museum of Modern Art, 2003.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico. São Paulo: Paz e Terra, 2005.