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  Título
Vidas-lazer
Autor
vinicios kabral ribeiro
Resumo Expandido
Pelos becos da Lapa, nos anos de 1930, ecoa o desejo de Tabu : “comprar uma máquina Singer, de pedal, pra costurar as fardas do meu anjo de bondade, meu marido. E viver uma vida lazer”. Posteriormente, Patrícia Simone da Silva conceitua de forma mais detida o que seria a tal vida lazer, almejada por Tabu. Ao ser inquerida por José Renato (aquele geólogo amargo, ressequido e espinhoso de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, sobre seus sonhos, ela prontamente afirma:"Eu desejava de ser tanta coisa na minha vida. Mas e seja lá o que for, se for o melhor tô indo pro melhor, e se for o pior tô indo pro pior. Eu queria ter realmente, meu sonho é tão alto nesse momento, era uma vida lazer pra mim e pra minha filha e mais nada".

José Renato, curioso, pergunta o que é uma vida lazer. E naquele instante Patty revela:"Uma vida lazer é assim: eu na minha casa, eu e a minha filha, o companheiro que eu tiver ao meu lado, pra esquecer esses momentos todos porque não dá certo. É triste a pessoa gostar sem ser gostada".

Aqui aspiro discutir, a partir do olhar de Patty e no rastro de uma virada afetiva (CLOUGH, 2010), as possibilidades de vidas-lazer na contemporaneidade. O que esperamos, sonhamos, vislumbramos aos nos levantarmos cotidianamente? De que maneira os encontros, os amores, as mortes, as paixões nos conduzem ou nos afastam de uma vida lazer? Mais ainda, o que seriam essas vidas-lazer?

Questões que conclamam uma reflexão detida para a possibilidade de uma visada ao cinema a partir do afeto, imbricada numa imaginação afetiva que permeia o cotidiano. E, também, em aproximações e urdiduras de expressões artísticas que tornam o afeto como uma possibilidade de experiência (RAMALHO, 2010), como uma forma de se conhecer o mundo.

Elena Del Rio (1998) alude a uma breve conceituação do que seria o afeto e as emoções. Aos modos de Espinosa (1979), afeto (afecções) como uma potência de agir. Já as emoções seriam a interpretação e codificação cultural das afecções, os sentimentos, como a raiva, a alegria, a tristeza. Longe de binarismo, Del Rio posiciona essas duas noções como indissociáveis e fluidamente conectadas.

É necessário definir estritamente o que seria um afeto? Ganhamos ao pensar no afeto como possibilidades plurais? O afeto como sinônimo de medos, de emoções, de potências de agir, da efemeridade do instante? De que maneira pensar os afetos como potências aglutinadoras de vidas comuns, singulares, lazeres? De que modo se pode entender os afetos como contribuintes para uma ética, estética e política na possibilidade de se viver juntos em um espaço heterogêneo, reconhecendo a profundidade do outro? E qual o lugar da amizade (FOUCAULT, 1981), dos arranjos para além de dados genéticos, propulsados pelo encontro, pelas viagens, pelo corpo?

Jeudy (2002), ao retomar aos estudos de Deleuze sobre Espinoza, recupera a questão “que pode o corpo?” e logo garante que “nenhuma pessoa tem condições de sabê-lo, pois ninguém conhece os limites de nossas afecções (JEUDY, 2002, p.109)”. Portanto, é sobre esse terreno desconhecido, em saber o que pode o corpo, é que podemos relacionar as possibilidades de experimentação, de ativação de potências, de sensibilidades vibráteis. Nesses terrenos onde também podemos perguntar quem habita essas vidas-lazer?

Vidas-lazer onde as pessoas/personagens são inscritas em uma lógica de visibilidade onde “[...] o banal torna-se belo como o rastro do verdadeiro" (RANCIÈRE, 2009, p.50). Personagens/pessoas que se diluem no fluxo das grandes cidades, no espaço doméstico, no cotidiano. Formas-de-vida (AGAMBEN, 2000), singulares, existências não se constituindo apenas como fatos ou evidências, mas como potencialidades. Formas de individuação em constantes reinvenções. Personagens que desaparecem, “pessoas que escapam, se escapam, se evadem de si do outro da tela. Talvez um momento de fulguração" (LOPES, 2011, p.17-18). Vidas-lazer de Pattys, Tabus e tantas outras vidas em fluxos de sonhos em movimento.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Form-of-life. In: AGAMBEN, Giorgio ; BINETTI, Vicenzo. Means without end: notes on politics. Minneapolis: University of Minnesota Press,2000. p. 3-12.

CLOUGH, Patricia. The Affective Turn. In: GREGG, Melissa e SEIGWORTH, Gregory (orgs.). The Affect Theory Reader. Durham, Duke University Press, 2010, 206 a 225.

DEL RIO, Elena. Powers of Affection: Deleuze and the cinemas of performance. Edinburgh, Edinburgh University Press, 1998.

ESPINOSA, Baruch. Ética. In.: Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1979.

FOUCAULT, Michel. Da Amizade como Modo de Vida. 1981. Disponível em:http://portalgens.com.br/portal/images/stories/pdf/amizade.pdf. Acesso: 09 mai 2012.

JEUDY, Henri Pierre. O corpo como objeto de arte. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.

LOPES, Denilson. Gestos e afetos fugazes. Mimeo, 2011.

RAMALHO, Fábio. As Pertinências do Afeto, Mimeo, 2010.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34,2005.