/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Videocriação: da estética do excesso ao retraimento do olhar
Autor
osmar gonçalves dos reis filho
Resumo Expandido
Cunhado nos últimos anos, o termo videocriação procura dar conta de uma série de obras audiovisuais contemporâneas que se caracterizam por certa economia de meios (por uma aposta na contenção ou na subtração do olhar), e por operar nas dobras, nas brechas, numa zona de indiscernibilidade entre dispositivos e linguagens. Trata-se, sem dúvida, de algo mais aberto e abrangente que a “velha” e querida videoarte. Enquanto esta última procurou confrontar-se com a televisão e com o cinema, combatendo um e outro para se firmar como um novo suporte de criação, a videocriação segue uma via bastante distinta: confunde-se com o meio televisivo e com o cinema, indicando o ponto mesmo de convergência, senão de convulsão entre esses campos.

Ora, qualquer pesquisador desavisado da história do vídeo, sabe que a videoarte surge inicialmente como uma arma contra a televisão. Embora compartilhem de um mesmo aparato técnico, vídeo e TV estabelecem desde o início uma relação conflituosa e problemática. Como dizia Jean-Paul Fargier, “o vídeo é contra a TV, é sua contraparte” .

E, de fato, as primeiras obras surgem empreendendo uma crítica corrosiva à televisão. Uma crítica que se manifesta, às vezes, de forma metafórica, ironizando e desconstruindo os códigos da representação televisiva; outras, de modo físico e concreto, ateando fogo, enterrando os aparelhos, virando a televisão literalmente pelo avesso. Basta lembrarmos-nos dos célebres televisores cimentados de Wolf Vostell e das TVs preparadas de Nam Jane Paik. Tanto num caso como em outro, tratava-se de reconfigurar ou destruir o aparelho, de triturar sua imagem e corromper o fluxo da informação televisual.

A videocriação, em contrapartida, assume positivamente sua posição de entremeio, seu estatuto de operador de passagens. Não opera mais contra a TV ou contra o cinema, mais entre eles. Se há algo que a define, com efeito, é o fato de se insinuar entre, de se instalar na fronteira, nos interstícios. E esta parece ser a característica principal de grande parte dos trabalhos produzidos nas últimas duas décadas. Instalados numa zona de indiscernibilidade – entre documentário e vídeo experimental, entre cinema e artes plásticas – eles circulam com igual desenvoltura nos festivais de cinema, nas exposições de arte digital, nos canais independentes de televisão.

Outro aspecto fundamental da videocriação é seu comedimento em relação aos efeitos e excessos, tão típicos da escrita videográfica. Desde o princípio, sabemos, a arte do vídeo explorou uma enorme variedade de trucagens, anamorfoses e efeitos de Quantel. De acordo com Fargier, na videoarte:

Uma imagem é sempre parasitada por uma ou várias outras. Ao quadro que destaca e contempla uma coisa única se substitui o quadriculado que encadeia os pedaços esparsos de uma totalidade que não pode mais ser recomposta. (...) Há sempre várias imagens para se ver ao mesmo tempo. Nunca é demais. (...) O que conta é a impressão de saturação e de dispersão. (...) Trucagens, efeitos especiais – a escrita do vídeo, no limite, consiste nisso.

Na videocriação, contudo, observamos uma postura comedida ante as enormes possibilidades oferecidas pelas mesas de edição. Nesses trabalhos, dificilmente encontramos distorções, sobreposições ou efeitos especiais. Aqui, a contenção se opõe à tagarelice contemporânea. O que presenciamos é uma espécie de retraimento do olhar, uma verdadeira higienização dos códigos. Nesse artigo, gostaríamos de estabelecer um diálogo com algumas dessas obras, mais especificamente com Filme de Horror (2003), de Morales e A Namorada do Meu Pai (2011), de Vieira e Vasconcelos, para pensarmos que novos problemas estéticos, políticos e epistemológicos estão em jogo aí. O que se passa quando saímos de uma estética do excesso e da saturação para modos de ver mais silenciosos, atentos, delicados?
Bibliografia

BOYLE, Deirdre. Subject to Change: Guerrilla Television Revisited. New York: Oxford University, 1997.

CUBITT, Sean. Videography: Vídeo Media as Art and Culture. New York: St. Martin´s Press, 1993

DELEUZE, Gilles. A Imagem-tempo, cinema 2. Trad. Rafael Godinho. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.

DUBOIS, Philippe. Cinema, Vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

FARGIER, Jean-Paul (org.) Où va la vidéo?. Paris: Cahiers du Cinema Livres, 1986.

GIL, José. As pequenas percepções. In: LINS, Daniel e FEITOSA, Charles. Razão Nômade. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

KRAUSS, Rosalind. A Voyage on the North sea: art in the post-medium condition. Nova York: Thames &Hudson, 2000.

______. Video: the aesthetics of narcisism. In: October 1, primavera de 1976.

MACIEL, Kátia (org.). Cinema sim: narrativas e projeções: ensaios e reflexões. São Paulo: Ed. Itaú Cultural, 2008.

______. Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009.