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  Título
Cinema, censura e política no Irã contemporâneo
Autor
Ferdinando Martins
Resumo Expandido
A censura ao cinema na República Islâmica do Irã compreende fases distintas que começam com a entrega do roteiro ao Ministério da Cultura e Orientação Islâmica, que irá determinar se a proposta é ou não adequada às diretrizes islâmicas.

Nessa fase, também são avaliadas as competências do roteirista, do diretor, dos atores e de outros participantes, bem como a idoneidade da equipe em relação às manifestações político-religiosas no Irã. Essa fase pode durar até mais de um ano – e é a primeira de um processo que inclui negociações sucessivas até o filme ser liberado (ou não) para circulação e, mais tarde, ser enviado para festivais internacionais.

Este trabalho apresenta os resultados da pesquisa Interdição e produção simbólica: a censura ao cinema e ao teatro na República Islâmica do Irã, realizada com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, com contrapartida do Programa de Apoio aos Novos Docentes da Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo.

A censura ao cinema no Irã contemporâneo é analisada em suas diferentes fases. O objetivo é investigar as interdições governamentais a fim de compreender os parâmetros políticos e culturais da prática censória à produção cinematográfica iraniana. Para tanto, investiga a censura e outros meios, oficiais ou não, de restringir a liberdade de expressão no período pós-Revolução (de 1979 ao presente).

A pesquisa foi realizada unindo procedimentos de análise fílmica e pesquisa etnográfica, realizada na França e no Irã nos meses de junho a setembro de 2011. Além disso, foram entrevistados diretores e produtores de cinema, artistas e executivos públicos da área cinematográfica.

Para a análise, construiu-se uma topografia do campo artístico no Irã para colocar em evidência a relação entre os agentes e as instituições e autoridades, bem como outras instâncias repressivas. Além disso, contrastou as percepções da prática censória e suas interdições na recepção dos filmes iranianos no Ocidente (França e Brasil). Dessa forma, pretendeu-se obter uma compreensão ampliada do campo artístico e do fenômeno da censura ao cinema no Irã.

Os resultados são apresentados em quatro grupos:

1) arbitrariedade e burocracia na censura ao cinema no Irã, com dados sobre a organização dos serviços de censura no Ministério da Cultura e da Orientação Islâmica e das instituições a ele associadas;

2) questões religiosas e culturais, no qual discute-se a relação entre moralidade e liberdade de expressão no âmbito da cultura islâmica e persa;

3) a posição dos agentes no campo cultural, destacando a relação de diretores, atores e produtores com o poder estabelecido e o peso de trajetórias individuais e do capital social na censura ao cinema;

4) criatividade e autocensura, apresentando as possibilidades estéticas de driblar as restrições da censura ao cinema.

Os resultados indicam que a compreensão da censura no Irã, em especial ao cinema e ao teatro, não pode ser considerada a partir de um ponto de vista unidirecional. Há um conjunto de fatores que, juntos, apontam não somente a produção simbólica (os filmes), mas sim para uma complexidade maior da vida iraniana contemporânea. Nesse sentido, a censura não é apenas uma ação governamental, mas um fenômeno de causas múltiplas e simultâneas.

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