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  Título
A animação direta como alternativa no Brasil dos anos 1950 e 1960
Autor
Fernando Aparecido Ferreira
Resumo Expandido
No Brasil, pode-se dizer que, do ponto de vista técnico e guardadas as devidas proporções, Norman McLaren representou para o cinema de animação o que o Neo-realismo e a Nouvelle Vague representaram para o cinema live action – uma alternativa acessível e genuína ao modelo industrial norte-americano. Apresentados aos brasileiros a partir dos meados dos anos 1950, os curtas de McLaren – em especial aqueles feitos a partir da técnica da animação direta, pintada na película – apresentaram-se como uma alternativa viável, frente à carência absoluta de recursos para se produzir cinema de animação no Brasil. O filmes “sem câmara” de McLaren foram uma demonstração de que a animação não se limitava aos cartoons, no modelo dos norte-americanos, realizados por uma grande equipe, organizada numa dispendiosa linha de produção, mas que poderia ser um exercício artístico autoral realizado num contato direto com a materialidade do filme, tal como ocorre entre o pintor e a tela. Neste processo, fazer animação poderia ser um trabalho artesanal e não industrial. Fazer animação também poderia ser o resultado de uma busca pessoal, uma investigação contínua sobre a produção do movimento sintético, grafado na matéria fílmica, descomprometido da narração e da criação da “ilusão da vida”, pregada pelo modelo disneyano. Ainda que os discípulos de McLaren no Brasil tenham sido poucos, foram eles os nomes de referência da arte da animação em nosso país por vários anos, figurando em mostras e publicações internacionais. O mais importante deles foi, sem dúvida, o paulistano Roberto Miller. Apaixonado pelo cinema de animação desde cedo, mas frustrado nas suas incursões nesta arte, justamente por ter por modelo somente o cartoon disneyano, Miller encontrou uma referência ao seu alcance quando viu Begone dull care de McLaren em 1954, no 1º Festival Internacional de Cinema do Brasil, ocorrido na cidade de São Paulo. O contato de Miller com a produção do animador se aprofundou com um estágio no National Film Board do Canadá. Ao retornar ao Brasil, Miller deu início a uma produção premiada e prestigiada que resultou em quase 70 curtas experimentais, a maior parte realizada com a técnica da animação direta. Algumas de suas produções conseguiram inclusive furar o circuito restrito dos cineclubes e dos festivais e serem exibidos ao grande público em salas de cinemas comerciais e na TV – Miller criou um curtíssimo filme de animação direta que inaugurou a primeira transmissão a cores no nosso país, para a extinta TV Tupi. Rubens Francisco Lucchetti e Bassano Vaccarini foram outros dois nomes que encontraram nos filmes de animação direta de McLaren uma alternativa de produção de animação no Brasil. Ignorando a produção que Miller estava iniciando na capital (São Paulo), Lucchetti e Vaccarini, então residentes em Ribeirão Preto (interior do estado), viram Star and stripes e Hoppity Pop, entre outras produções de McLaren, numa sessão especial do Clube de Cinema de Ribeirão Preto, criado na Faculdade de Medicina da cidade, sob o incentivo de Paulo Emílio Sales Gomes. Através de um empréstimo dos filmes de McLaren por uma semana, Lucchetti e Vaccarini analisaram as obras frame a frame. Logo após, fundaram o “Centro Experimental de Cinema de Ribeirão Preto”, do qual apenas os dois faziam parte, mas que realizou, em apenas 03 anos de existência, 11 curtas-metragens (sendo a maior parte em animação direta e alguns em stop motion) e o primeiro Festival do Cinema de Animação ocorrido em nosso país, em São Paulo, em 1962. A recuperação e análise deste momento histórico e o resgate da produção de Roberto Miller e do Centro Experimental de Cinema de Ribeirão Preto revelam o papel exercido pelos cineclubes e pelos festivais no desenvolvimento da animação brasileira, bem como possibilitam verificar a influência de Norman McLaren no início de uma produção sistemática da animação em nosso país.
Bibliografia

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DOBSON, Terence. The film work of Norman McLaren. Eastleigh: John Libbey Publishing. 2006.

CHAVES, Moreira. et al. Festival do cinema de animação. São Paulo: Centro Experimental de Cinema da Escola de Artes Plásticas de Ribeirão Preto, 1962(catálogo).

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MIRANDA, Carlos Alberto. Cinema de animação: arte nova, arte livre. Petrópolis: Vozes, 1971.

MORENO, Antonio. A experiência brasileira no cinema de animação. Rio de Janeiro: Artenova, 1978.

SCHLICHT, Esther & HOLLEIN, Max. Zelluloid - Film ohne Kamera. Frankfurt: Kerber, 2011.