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  Título
Performance e personagem no cinema do não acontecimento de Cao Guimarães
Autor
maria henriqueta creidy satt
Resumo Expandido
O documentário brasileiro tem se afirmado como um terreno fértil de experimentações, tanto em relação às estratégias narrativas, como às diretrizes conceituais, estéticas e formais. Exemplo disso é a obra do artista audiovisual Cao Guimarães que se movimenta em modos narrativos híbridos, abalando as convenções tricotômicas entre documentário, ficção e videoarte. A partir da análise de cenas de três filmes, A alma do osso (2004), Andarilho (2006) e Ex isto (2010), essa comunicação pretende refletir acerca da sua filiação a um cinema, que nomino como “não acontecimento narrativo”, em contraponto à noção de “acontecimento”, das tradições modernas.

Tramados ao registro temporal, interessa-nos pensar três pontos que mobilizam as estratégias narrativas das obras e que nos parecem comuns aos três filmes. O primeiro refere-se à construção das personagens, de sua condição existencial, em como elas nos são apresentadas ou, caso do Ex isto, transformadas ao longo da narrativa, em seres lacunares, de gestos mínimos e econômicos, solitários, destituídos de referências e viandantes. São personagens sem um contexto preciso de suas origens e histórias de vida, constituídas através de artifícios que se articulam, propositalmente, como realidades que escapam a uma lógica totalizante.

O segundo aspecto a investigar é a maneira como essas personagens, em momentos específicos dos respectivos documentários, desenvolvem suas ações dialogando com a dimensão plástica e cênica da performance, aqui pensada como um gênero artístico oriundo da arte contemporânea, rompendo a linearidade e trazendo à narrativa uma dimensão sensorial.

Por fim, gostaria de matizar as estéticas de registro observacional desenvolvidas na trilogia, em suas opções formais por planos-sequências longos e geométricos; câmeras fixas e movimentos minimalistas. Estratégias que subvertem a “dramaturgia dos gestos e das ações”, desenvolvidas na origem do cinema observacional, onde eram conjugados os movimentos das personagens com os dos próprios documentaristas. Uma coreografia que afirmava a presença do realizador-câmera, através das suas estéticas de captação, de sua câmera-corpo.

Bibliografia

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JOYARD, Olivier. C’est quoi ce plan? (La suite). In: Cahiérs du Cinema, n. 580, junho de 2003. Paris: 2003, pp.26-27.



LALLANE, Jean Marc. C’est quoi ce plan?. In: Cahiérs du Cinema, n. 569, junho de 2002.Paris: 2002, pp.26-27.



LOPES, Denilson. A delicadeza: estética, experiência e paisagens. Brasília: Ed. UnB/Finatec,2007.



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SATT, Maria Henriqueta Creidy. A construção do imaginário urbano no documentário brasileiro contemporâneo. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação), São Paulo,ECA/USP, 2008.