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  Título
O raccord em SuperOutro: músicas e ligações
Autor
Maria Noemi de Araujo
Resumo Expandido
Em SuperOutro (1989), de Edgard Navarro, a música é um recurso usado como uma espécie de corte, suspensão para com o mundo confuso em que o personagem-título se nos enreda. Cada vez que o protagonista aparece cantarolando uma música significa que vai mudar de espaço, de atividade, como num "raccord" (Burch), em que se designa a passagem de um plano (ou sequencia) a outro. Esse recurso à música produz um efeito importante na linguagem do filme na medida em que a trilha sonora é usada como elemento dramático e transtextual. O extenso tecido musical é variado: Vila-Lobos, Carlos Gomes, Caetano, Fausto Fawcett, Nino Rota, Arrigo Barnabé, Banda Mel com os Hinos da Independência e da Internacional Socialista, cantorias de Cordel, ritmos de Candomblé. Trechos de ópera, por exemplo, são usados nas cenas de sexo; Chitãozinho e Chororó aparecem como legenda da cultura do caminhoneiro.

O título SuperOutro é uma condensação de termos em que a conhecida música de Caetano já lhe dava o mote: “Superbacana, Super homem, Superflit, Supervinc, Superist”. Ela no filme marca o momento em que o personagem está ganhando as ruas, que fluem leves como se captadas por uma câmera Super-8. Essa bitola amadora faz parte da cultura de "iniciação" e de experimentos cinematográficos de toda uma geração de cineastas dos anos 70, da qual Navarro é um dos maiores representantes Alice no país das mil novilhas, O rei do cagaço, Exposed.

Com Freud, pode-se articular o título SuperOutro à questão do Superego como um elemento a mais da série, na medida em que o personagem nada tem a ver com a consciência moral, suas demandas, suas obrigações e desejos são levados às últimas consequências. (Lacan). O superego é o real, o cruel e insaciável que bombardeia com exigências impossíveis, o mais culpado. Para, Slavoj Zizek superego é o imperativo de gozo.

O filme não é naturalista. Com uma vasta variedade de trocadilhos, clichês, a realidade do personagem tem a ver com o modo pelo qual o diretor e equipe, formada por profissionais do teatro, falam de Salvador, da Bahia, do Brasil, a linguagem da arte, da solidão numa perspectiva universal.

Navarro construiu um personagem-tipo de deserdado, um João ninguém. Em vez de buscar o belo, ou o “esplendor da forma”, como Santo Tomás de Aquino, ele resgata a dimensão do “resto”. A dignidade do personagem se revela justamente nas cenas em que ele aparece cantarolando alguma música popular brasileira. O resto do mal estar da civilização é também representado na vestimenta do protagonista. Inicialmente, o personagem usa um uniforme de jogador de futebol, portando um apito de juiz de futebol. Sua roupagem não é uma somatória de trapos, mas um amontoado de símbolos e significados. Coma a camiseta rasgada, contendo estrelinhas da bandeira do Brasil, ou um lenço amarrado no pescoço em estilo “Black Tie”; a capa preta de plástico sobre seu corpo nu é uma alusão ao Super-8, na figura do Nosferato de Torquato Neto, no filme de Ivan Cardoso; o short branco com pés descalços, do anônimo que perambula pela cidade contemporânea sem ser notado.

A estética do filme dialoga com o cenário barroco de Salvador, no uso excessivo de lances de escadarias, movimentos de câmera encaracolados, clareiras, bruscas rajadas de músicas, declamações de textos literários, discursos políticos.

Em SuperOutro, como em Deus e o diabo na terra do sol, há certo excesso de retórica, não há jogos de espelho (Lacan). O personagem é real e claro, embora transite sem problemas pelo seu habitat, entre os populares nas manifestações cívicas, religiosas e políticas, ou no universo do trabalho: o filme retrata a solidão urbana no espaço público contemporâneo. A exemplo disso tem a cena em que ele grita do alto de uma árvore, “quero uma mulher”. Do lado de fora do hospício, vestido com um uniforme, há uma sequencia de closes na sua boca, nariz, peito nu e ouvido indicando algo do personagem como alguém que escuta cidade, mas não é por ela escutado.

Bibliografia

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