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  Título
Expressionismo caipira, conceito de Sganzerla, crítico de cinema
Autor
Rubens Luis Ribeiro Machado Júnior
Resumo Expandido
Sganzerla debutou bem precocemente como crítico, ainda aos 17 anos. No Suplemento Literário d'O Estado de S. Paulo, viria a desempenhar um papel discreto, porém sistemático, de intérprete e defensor do Cinema Novo, um tanto solitário na imprensa paulista. Além de importantes para nos ajudar a elucidar os seus tão provocantes filmes, seus artigos também devem contribuir para a reflexão sobre o cinema moderno no país. Em dois artigos de 1965 (“Filmar São Paulo” I e II), cunhava um conceito sugestivo para caracterizar o marasmo de vicissitudes estéticas que acometia o cinema brasileiro: “expressionismo caipira”. Mais especificamente ele tratava de um panorama histórico do cinema paulista para construir um pano de fundo que explicasse a novidade do advento, o impacto então causado por São Paulo S. A.

É bem certo que a fenomenologia existencialista já marcava o pensamento de um ensaísta como André Bazin, a referência crítica primordial de Sganzerla. Têm clara inspiração baziniana algumas de suas intuições, principais ou secundárias. Um exemplo disso seria o mote do parentesco do Cinema com o Barroco. É muito rico o influxo destas concepções realistas junto à problemática do caráter brasileiro, de que o autor sugere por vezes ter em conta. Não seria sintomática a sua incorporação à poética moderna, com alguma ênfase, de uma dada integração do ingênuo e do espontâneo?

Fértil no embate com os filmes, sobretudo os nacionais, os artigos de Sganzerla deixam claro que respirava em sua juventude cinéfila de um pleno cosmopolitismo paulistano: sua academia eram as sessões da Cinemateca Brasileira, um pouco como na germinação da Nouvelle Vague a partir das sessões da Cinemateca Francesa. A desigualdade porém destes processos tem nele uma percepção prodigiosa. Sua crítica de São Paulo S. A. observa que o filme, “além de reunir a cosmologia local vem redimir esta capital e sua cinematografia”, exigindo do cinema paulista “revisões críticas do passado”. Para Sganzerla, o que marcava “o famoso estilo do cinema paulista, desagradável e indestrutível”, e no qual “pouco evoluiu-se de Moral em concordata (1959) a Noite vazia (1964), de Rebelião em Vila Rica (1958) a O pagador de promessas (1962)”, seria um “mesmo moralismo fácil, a desvalorização e o desinteresse do ator diante de personagens postiços, uma movimentação pesada e amorfa que encontra ascendências no mais deselegante expressionismo norte-americano.”

Esta espécie de expressividade inexpressiva corresponderia ao “mais autêntico provincianismo, e também o mais ingênuo, precisamente aquele que ignora que o seja.” Esse traço persistente no cinema brasileiro “não encontra lugar somente nas realizações de Mazzaropi ou de Lima Barreto. Vai além; principalmente em obras que pretendem ser ‘eternas e universais’, quando se revela mais desastroso. (...) Sabe-se o quanto é típico do provincianismo imitar estilos metropolitanos.” O cinema que se acostumou fazer na capital paulista vivia, “de experiências já ultrapassadas do cinema mundial, acrescidas de uma última ingenuidade: a convicção da seriedade.”

Certa mania universalizante da pesada seriedade acadêmica desta estética, para além da fotografia e da montagem, “compromete a estrutura interna do filme, tratamento de personagens, soluções de conflitos, desdobramento de situações”; e dada “indigência material” seria não só anacrônica dos nossos estúdios bem como do tratamento melodramático “ que na época do expressionismo alemão revelava-se eficaz”. Para o crítico revelam-se ainda os mesmos vícios estéticos, mesmo no retrospecto das persistentes tentativas de modernização do cinema paulista, ao se tentar escapar das “velhas adjetivações formais” e da “claustromania estetizante” mesmo que com alguma híbrida inclusão da “problemática social, até então estranha ao nosso cinema, chegando a adotar lente zoom e câmera na mão”. Paradoxalmente a ensaística contemporânea permitiria caracterizar o próprio filme de Person nos termos do expressionismo.
Bibliografia

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