/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A produção de imagens na Internet: Entre performances e visualizações
Autor
Fernanda de Oliveira Gomes
Resumo Expandido
A contemporaneidade é marcada por transformações nos processos de construção e exibição de si, associadas a diluições de grandes padrões comportamentais nas esferas sociais, artísticas e midiáticas. Estas transformações e diluições são intensificadas por uma crescente evolução e acessibilidade técnica que possibilita a disseminação cada vez maior de experimentações em setores da sociedade que durante muito tempo foram considerados apenas como receptores das produções culturais. É muito comum que ações performáticas em espaços das mais variadas configurações sejam registradas por algum tipo de câmera e retransmitidas através de algum canal midiático ou artístico, não se restringindo somente às pessoas presentes no momento em que acontecem. Muitas delas apresentam uma característica comum: pessoas saindo de uniformizações comportamentais, do habitual lugar da plateia, para serem as atrações centrais em um mundo que cada vez mais valoriza a expressividade pessoal de cada um. Dependendo da repercussão, dezenas, centenas ou milhares de pessoas podem se transformar no público de produções que apresentam diferentes níveis de improvisação e que entram em uma rede coletiva de performances, resultado de momentos individuais de criação, compartilhados graças ao acesso facilitado aos dispositivos de registro e difusão de imagens.



Este sentido de coletividade pode ser claramente observado no processo de compartilhamento de vídeos de internautas em sites como o Youtube e em algumas redes sociais, dentro de uma prática contínua de exposição e exibição de si. Buscamos então delimitar um contexto no qual os indivíduos são cada vez mais estimulados a abandonarem grandes padrões, buscando intensificar a relação entre cultura, arte e mídia, a partir de uma perspectiva comportamental.



Certamente o fenômeno da Internet mais recente dentro de uma produção de séries de vídeos performáticos é o "Harlem Shake", que segundo o blog Youtube Trends já apresentava mais de 12 mil versões em fevereiro de 2013, produzidas por usuários de vários lugares do mundo, com mais de 44 milhões de visualizações no total.



Vários estudiosos consideram o contemporâneo como “a era da performance”, por se configurar como um momento histórico que evidencia as inúmeras pressões sobre os corpos e as subjetividades. O objetivo é sempre impressionar o outro que observa. Sendo assim, produções artísticas e midiáticas nas quais o espectador passa a ser o principal elemento a ser assistido são identificadas como recortes extremamente pertinentes dentro desse contexto.



A representação de si mesmo diante da câmera foi uma promessa que surgiu com o cinema e já exercia uma enorme atração sobre o homem moderno. Segundo Walter Benjamin, “o astro de cinema impressiona seu público, sobretudo porque parece abrir a todos, a partir do seu exemplo, a possibilidade de ‘fazer cinema’” (BENJAMIN, 1994, p. 182).



O "espectador performer" parece ser o resultado de uma longa preparação para este novo papel na recepção artística e midiática. Ele agora se coloca como interface e como espectador de si próprio, ao mesmo tempo em que se conecta a outros espectadores. Situações performáticas na esfera da recepção são incitadas pelo confronto com as imagens e potencializadas pelos dispositivos tecnológicos.



Em uma perspectiva relacional, as interações que se dão por meio de dispositivos são vistas como processos de influências mútuas que os participantes exercem uns sobre os outros na troca comunicativa e também como situações marcadas por jogos de ações e reações. A interlocução é retomada aqui para evidenciar como os parceiros se acham mutuamente implicados nas produções artísticas e midiáticas. É um círculo contido no relacional. Processos interativos vão ao encontro do jogo de reconhecimento recíproco do cotidiano e à produção de interpretações, construção de modelos mentais, paradigmas, perspectivas, crenças e pontos de vistas constituídos de elementos cognitivos.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. Magia e técnica, arte e política. São Paulo:Brasiliense,1994.



BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2006.



CERTEAU, Michael de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2009.



FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.



FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 2007.



LIGIÉRO, Zeca (org). Performance e Antropologia de Richard Schechner. Rio de Janeiro:Mauad X, 2012.



RANCIÉRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.



_________________. The emancipated spectator. London: Verso, 2009.



SCHECHNER, Richard. “O que é performance”. In: O percevejo, UNIRIO, N° 12, Rio de Janeiro, 2003.



SIBILIA, Paula. O show do eu: A intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.