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  Título
Da cartola de Mojica: reinventado o horror na trilogia de Zé do Caixão
Autor
Lucio De Franciscis dos Reis Piedade
Coautor
Laura Loguercio Cánepa
Resumo Expandido
Entre os pioneiros na explicitação dos flagelos da carne e mortes violentas que tomaram as telas a partir do final dos anos 1950, destacamos o brasileiro José Mojica Marins, cineasta que, em 1964 lançou À meia-noite levarei sua alma, primeiro filme de horror brasileiro a assumir-se como tal. Além de fenômeno de público, o filme transformaria seu realizador em figura midiática onipresente desde então.

Nos últimos anos, diferentes pesquisas acadêmicas e jornalísticas têm procurado tratar da presença do gênero horror no cinema brasileiro, e sem dúvida, a maior unanimidade diz respeito à centralidade de figura de Mojica, diretor, produtor e ator mais conhecido como Zé do Caixão. Um dos mais prolíficos realizadores do cinema de horror na América Latina, Mojica transitou por outros gêneros, como o western, o melodrama e o sexo explícito – nos quais, como observa Carreiro (2012: 345) sempre manteve elementos oriundos da iconografia do horror.

Com À meia-noite levarei sua alma, também central na trajetória de Mojica, teve início a saga do agente funerário Josefel Zanatas, o Zé do Caixão, sociopata assassino, blasfemo e poderoso que aterroriza uma cidadezinha do interior em sua busca da mulher que lhe dará o filho perfeito. A saga continuou em 1967, quando foi realizado Esta noite encarnarei no teu cadáver, o maior sucesso da carreira de Mojica, no qual desenvolveu métodos ainda mais violentos para encontrar a mãe de seu filho, com direito a sequestros e múltiplas torturas, entre as quais a exposição de mulheres seminuas ao ataque de aranhas e cobras.

Apesar do personagem permanecer na mídia nos anos seguintes, com aparições na TV, no rádio e nos quadrinhos, a história de Zanatas sofreria uma longa interrupção, e só terminaria seu périplo em 2008, no longa Encarnação do Demônio. Nesse filme, Josefel, depois de amargar quarenta anos de cadeia, monta uma gangue de seguidores que finalmente lhe derá mulheres dispostas a gerar sua prole.

Esse último filme, realizado por Mojica junto a uma equipe de jovens realizadores oriundos da cena independente (como Dennison Ramalho e Kapel Furman), demonstra um novo direcionamento para o personagem, passando dos temas recorrentes da narrativa clássica do gênero para as novas tendências que frutificaram a partir dos anos 1980 como o slasher (em que pessoas são mortas em série), o “inferno” cenobita da série Hellraiser (inaugurada em 1986) e o mais atual torture porn (ênfase nas torturas e sevícias que antecedem a morte das vítimas), cristalizadas na excessiva violência gráfica de Encarnação do Demônio.

Neste trabalho, pretendemos discutir as reinvenções de estilo e narrativa dos filmes de Mojica através da trilogia Zé do Caixão, observando a forma como do diretor dialogou com as principais tendências do gênero dentro e fora do Brasil desde a década de 1960.

Bibliografia

BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Maldito – A vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. São Paulo: Editora 34, 1998. 446 p.



BARKER, Clive. Clive Barker’s A-Z to Horror. New York: HarperPrism, 1997.



BÉGIN, Richard; GUIDO, Laurent. “Présentation”. Revue d´etudes cinematographiques. Vol 20, n. 2-3, Qébec, Université de Montreal, 2010, p. 07 a 11.



BISCAIA FILHO, Paulo. Palcos de Sangue. Belo Horizonte: Estronho, 2012.



CARREIRO, Rodrigo. “El problema del estilo em Jose Mojica Marins”. In: DÍAZ-ZAMBRANA, Rosana; TOMÉ, Patrícia. (Eds). Horrofílmico: Aproximaciones al cine de terror em Latinoamérica y el Caribe. San Juán: Isla Negra Editores, 2012, p. 342-358



FERNANDEZ, Alexandre Agabiti. “Um arranjo prosaico e extravagante”. In: PUPPO, Eugênio (Ed.) José Mojica Marins: 50 anos de cinema. São Paulo: Heco produções/CCBB, 2007, p. 41-48.