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  Título
DocTV: uma questão estética
Autor
Karla Holanda
Resumo Expandido
O DocTV, programa de fomento à produção de documentários do governo federal que realizou quatro edições nacionais entre 2003 e 2010, consistiu na seleção de projetos em todos os estados brasileiros. Para além dos efeitos da descentralização da produção e da exibição, uma vez que cada estado produz e todos os filmes são exibidos em rede nacional pelas emissoras públicas de televisão, este trabalho vai se ater à preocupação estética, questão cara aos gestores do Programa.



Desde as constantes alterações do regulamento do DocTV nas sucessivas edições, o Programa vinha buscando enfatizar a preocupação com a forma a ser adotada pelo realizador na execução de seu filme, chegando a eliminar a palavra “tema”, tão costumeiramente trazida à frente quando se trata de projetos de documentários. Além disso, o Programa também instituiu a oficina de desenvolvimento de projetos, encontros onde os realizadores selecionados deveriam participar antes de partirem para a feitura de seus filmes. Em tais encontros, os projetos eram discutidos e orientados por documentaristas veteranos, com o propósito de instigar os novos realizadores ao “como fazer”, evitando modelos convencionais, geralmente empregados no telejornalismo.



O “Balanço DocTV – 2003-2006”, relatório produzido pelos próprios gestores do Programa, previa a realização, que não se efetivou, de uma publicação que “consolidaria as experiências das ações de formação”. O propósito da publicação, segundo exposto no relatório, seria enquadrar “o debate estético de hoje como 'legitimação teórica e/ou promoção de novos grupos', no rearranjo de forças que determinarão o próprio debate estético dessa década” (grifo meu). Assim como nas oficinas de formação, o propósito da publicação, ao que parece, demonstra a vontade do Programa em afirmar um pensamento estético que consolide determinados valores e, consequentemente, promover determinados realizadores.



A contundência da revelação leva a questionar a raiz de sua motivação – a forte carga ideológica dos que estavam à frente da condução do DocTV - e a refletir sobre a inevitabilidade de lidar com as marcas indeléveis do nosso sub-desenvolvimento crítico do olhar.



A chegada, finalmente, de um partido de esquerda brasileiro ao poder, em 2003, vitalizou o desejo de alguns gestores em construir algo verdadeiramente novo num Brasil traumatizado por 20 anos de ditadura militar seguidos por governos neoliberais. Havia um forte entusiasmo em fomentar novas ideias que dialogassem com o que era considerado mais inventivo naquele momento. O desejo de aprofundamento no campo estético, através de pesquisas formais e sensoriais, procurando tirar o documentário daquele lugar geralmente associado a estratégias enfadonhas de abordagem, parece decorrência desse contexto.



No outro lado da moeda, considerando que o regulamento exige anonimato do proponente ao se inscrever na seleção, ou seja, ele não solicita experiência curricular do documentarista, pode-se perguntar: a indiferença de alguns realizadores às regras estéticas mais valorizadas é um processo a ser evitado ou incorporado? Não se espera que algo essencial resulte dali, mas, afinal, uma formação não se dá durante uma semana às vésperas das filmagens. Deveria ser função do DocTV essa “formação”?

Bibliografia

ALCOFORADO. Paulo. Entrevista presencial, no Rio de Janeiro, no dia 18/10/12.



BERNARDET, Jean Claude. Piranha no mar de rosas. São Paulo: Nobel, 1982.



CAETANO, Maria do Rosário (org.). DocTV: operação de rede. São Paulo: Instituto Cinema em Transe, 2011.



FURHAMMAR, Leif & ISAKSSON Folke. Cinema e política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2ª ed., 2001.



MATTOS, Carlos Alberto. Um dia no mosteiro. Publicado em 13/09/2008 e disponível em http://oglobo.globo.com/blogs/docblog/post.asp?cod_post=126085. Acessado em 14 de setembro de 2008.