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  Título
Afetos e Perceptos no cinema da luz de Clarissa Campolina
Autor
Denilson Lopes Silva
Resumo Expandido
Um cotidiano que esvazia eventuais clímax, pontos privilegiados. É como se nos encaminhássemos para um processo não de mímesis como imitação da realidade, mas de abstração. “Notas Flanantes” (2009) e “Adormecidos” (2011) de Clarissa Campolina decompõem a cidade em um cotidiano quase abstrato. Se “Notas Flanantes” é a experiência da luz do dia. Adormecidos é a luz na noite. Em “Notas Flanantes”, há uma narradora, a própria diretora, que passeia por lugares escolhidos ao acaso. Os dispositivos montados me interessam menos do que o mundo delicado e microscópico encenado que vai das formigas e folhas no chão aos fios elétricos, ventos e nuvens. Há vozes e falas, mas não vemos quem fala e quase o que interessa mais é som não o que é dito. Os seres humanos aparecem mas não são centrais na imagem. Já em “Adormecidos”, não há nenhuma voz, nenhuma narração. Continuam planos, em grande parte, fixos. Aqui , a figura humana desaparece por completo. Apenas temos ecos delas pela luz dos apartamentos e pelos rostos de modelos nas vitrines. As imagens são haikais. Um mundo suspenso e flutuante, em repouso.

É possível pensar o espaço em “Notas Flanantes” (2009) e “Adormecidos” (2011) de Clarissa Campolina como afetos? Podem os espaços serem afeto e não só perceptos? É a partir dessas questões que vamos inicialmente nos aproximar desses filmes.

Gilles Deleuze e Félix Guattari em O que é a Filosofia? consideram a obra de arte como “um bloco de sensações, isto é, um composto de perceptos e afetos” (DELEUZE r GUATTARI, 1992, p.213), ou de forma mais concisa, concebe a arte como “a linguagem das sensações” (idem, p.228). Esta perspectiva nos ajuda na leitura dos filmes, mais do que os trabalhos específicos de Deleuze sobre cinema já que os afetos são “devires não-humanos” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 220). Contudo, os afetos que, na minha opinião, podem emergir, em conjunto com perceptos, “as paisagens não humanas da natureza” (idem), entre pessoas, espaços e coisas, portanto mais em sintonia com as configurações de uma subjetividade pós-humana, que desconstrói a centralidade do homem, presente na arte, desde a perspectiva renascentista ao teatro naturalista, no horizonte de um “devir sensível” que “é o ato pelo qual algo ou alguém não para de devir-outro (continuando a ser o que é)” (idem, p. 229).

Portanto os espaços nos filmes de Clarissa Campolina não são apenas panos de fundo, elementos menores da encenação, são sensações que definem mesmo o filme, que estão na sua materialidade. Não se trata de falar de processos de criação ou de recepção. Eles são afetos e perceptos que emergem num mundo que objetos, espaços são tão importantes quanto pessoas. Trata-se de uma encenação dos afetos e perceptos que tanto se diferencia de uma estética do excesso presente em filmes de gênero associados (mas não só) ao melodrama e de diretores que estabeleceram diálogos com este gênero bem como saímos da sensação de mal-estar que parece apontar o livro de Aumont (2008) ao falar de um fim da encenação no cinema contemporâneo.

Para articular encenação e afeto a atmosfera teria um papel central. “A atmosfera de um lugar, de uma situação ou de uma pessoa é um fenômeno físico ou psíquico percebido pelos sentidos. De qualquer modo, é um meio ou uma impressão que os toca, de maneira particular, e que se transforma em afeto” (GIL, 2005, p.21). Desse modo haveria uma entrada do afeto pelas impressões (SCHAPIRO, 2002) e sensações dos espaços e seus objetos, talvez mais próximas dos perceptos, não necessariamente pelo rosto que Deleuze (s.d, 103) prioriza no seu livro sobre a imagem-movimento: “a imagem-afecção é o primeiro plano, e o primeiro plano é o rosto”.

Dessa forma os espaços e objetos compõem uma paisagem , termo que desenvolvemos em outro momento (LOPES, 2007), como um espaço marcada pelo afeto, não apenas para ser contemplado mas para ser vivido.

Bibliografia

AUMONT. Jacques. O cinema e a encenação. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.

AUMONT, Jacques. O Olho Interminável: Cinema e Pintura. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

BRASIL, André e Teia.(org.). Teia 2002-2012. Belo Horizonte: Teia, 2012.

CAUQUELIN, Anne. L’Invention du Paysage. Paris: Plon, 1989.

DELEUZE, G; GUATTARI, F. O que é a filosofia?. Rio de Janeiro: 34, 1992.

DELEUZE, Gilles. Cinema 1: Imagem Movimento. São Paulo: Brasiliense, s.d.

GIL, Inês. A Atmosfera no Cinema. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2005.

GIL, José. A Arte como Linguagem. Lisboa: Relógio d´Água, 2010.

LOPES, Denilson. A Delicadeza. Brasília: Ed. UnB, 2007.

LOPES, Denilson. "Afetos Pictóricos ou em Direção a Transuente de Eryk Rocha", Rio de Janeiro: Mimeo, 2012.

PEIXOTO, Nelson Brissac. “Ver o Invisível: a Ética das Imagens” in NOVAES, Adauto (org.). Ética. 5a. reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 1997

SCHAPIRO, Meyer. Impressionismo. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.