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  Título
Hillbilly: a persistência de uma imagem no cinema norte-americano
Autor
Antonio Marcos Aleixo
Resumo Expandido
O caminho percorrido pela imagem do caipira na cultura norte-americana remonta aos shows de cowboys no século XIX. Com o surgimento da publicidade radiofônica, a música dos camponeses sulistas encontrou uma “janela de comercialização”, tornando-se uma “indústria cultural”. Surgia, a música hillbilly, e, na sua esteira, reações agressivas, nos lugares onde ainda imperava uma profunda desconfiança em relação ao branco sulista, herdada da experiência da Guerra Civil.



A primeira grande elaboração, no plano da imagem cinematográfica, do “reencontro” entre os antigos “inimigos de guerra”, se deu em uma adaptação de As Vinhas da Ira, romance em que John Steinbeck transformara, em “monumento épico”, a grande migração causada pela crise pós-1929 e pela exaustão de terras férteis no Sul. Com foco narrativo “colado” às personagens que migram, a adaptação dirigida por John Ford constrói uma imagem do caipira como um “desterrado”, tentando sobreviver a um sistema econômico violento, sem contar com aliados entre a classe trabalhadora urbana, que o via como adversário na luta por emprego.



O segundo momento da trajetória do caipira no cinema norte-americano é caracterizado por embates diversos no plano da imagem. Com a prosperidade econômica do pós-guerra, os migrantes sulistas conquistaram espaços e ascenderam socialmente, passando a rejeitar associações com sua antiga situação de “esfarrapados” e a exigir das indústrias culturais uma imagem mais afeita à sua afluência atual. A música hillbilly, renomeada música country & western, responderia a essa exigência com a imagem do “caipira bem sucedido”, que já não se apresenta de macacão e chapéu de palha, nem canta com a voz nasalada de seus ancestrais. Acuada pelo avanço de valores culturais que lhe pareciam reacionários, a esquerda entrincheirada em Hollywood aplicaria um duro golpe a esta imagem: o filme Um Rosto Na Multidão (Elia Kazan, 1957), em que é posto em xeque o empreendedorismo de um caipira corrupto e demagogo. Um ano-chave nos embates culturais que se seguiram foi 1968, quando a esquerda dividida assistiu à transformação da classe trabalhadora sulista, até então uma aliada do Partido Democrata, na “maioria silenciosa” que levaria Nixon à Casa Branca. A reação simbólica a tal “traição de classe” viria em 1972, com Amargo Pesadelo, uma adaptação do romance de James Dickey, escrita pelo próprio autor e dirigida por John Boorman. Aqui, a imagem do caipira ressurgia na figura aterradora de estupradores, na infância emudecida pela doença mental e na velhice abandonada nos confins da Geórgia. Ao mesmo tempo, o “ressentimento” do ponto de vista narrativo se traduzia no desejo de que a construção de uma grande barragem sobre o rio Cahualawassee viesse encobrir a dolorosa memória do caipira como um “outro branco” ameaçador.



O terceiro momento que nos interessa apontar é a reflexão proposta em Nashville (1975), de Robert Altman. Valendo-se do mapeamento crítico dos negócios country na “cidade da música”, o filme avalia, dentre outros objetos, a “espetacularização” da vida política e social da classe trabalhadora sulista, localizando a imagem do caipira na figura de empresários e stars autoritários, nos “sonhos de grandeza” de principiantes “sem futuro” e na realidade de trabalhadores culturais esmagados por relações de produção violentas.



Terminado esse percurso, pensamos que as metamorfoses da imagem do caipira nos filmes apontados podem ser encaradas como traduções simbólicas das formas tomadas pelas “lutas fratricidas” da classe trabalhadora ao longo do século XX e lançamos a hipótese de que a persistência de ambas, figura e realidade figurada, talvez seja uma espécie de “reativação neurótica” de um “trauma histórico” não resolvido: a fratura violenta da classe trabalhadora em campos opostos e o adiamento indefinido de sua reunião em uma sociedade reconciliada.

Bibliografia

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