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  Título
Serialidade e a ficção seriada brasileira para TV a cabo (2012/2013)
Autor
João Carlos Massarolo
Resumo Expandido
Na definição clássica, a série é entendida como a proposta de uma estrutura episódica, protagonizada por uma personagem ou centralizada em torno de um tema, que progride seguindo a lógica de acumulação dos capítulos. Essa definição clássica coexiste com a perspectiva contemporânea e, muitas vezes, ambas podem ser encontradas num mesmo produto. Ou seja, a visão tradicional de que séries e (tele) novelas são estruturas excludentes e contraditórias é substituída pela noção de séries e novelas como parte de um processo mais amplo, no qual a serialidade guarda os traços estilísticos da distinção clássica entre séries e episódios.

Os processos de convergência midiática propiciados pela evolução tecnológica e cultural permitiram o surgimento de novas plataformas de produção para o entretenimento, tais como canais de TV a cabo e via satélite. A crescente fragmentação das audiências e o acelerado desenvolvimento tecnológico sinalizam para um futuro de globalização da produção audiovisual. Neste contexto, os grandes conglomerados de mídia tendem a explorar os novos e promissores mercados de nicho da TV a cabo e via satélite, utilizando as novas plataformas de entretenimento para transformar a narrativa seriada televisiva num portal de acesso a conteúdos interconectados.

Deste modo, a estrutura seriada televisiva contemporânea se configura como uma mistura entre série e (tele) novela, aspirando ao hibridismo de gêneros. Para Mittel (2012, p. 36) a complexidade narrativa “é uma redefinição de formas episódicas sob a influência da narração em série – não é necessariamente uma fusão completa dos formatos episódicos e seriados, mas um equilíbrio volátil”. A forma narrativa que surge com a serialidade da forma seriada, promove a abertura da estrutura, o que não implica no esgotamento da trama num único episódio, como acontece na estrutura convencional, enfatizando mais a trama do que as personagens e a experimentação de combinatórias narrativas que hibridizam os gêneros televisivos.

Segundo Umberto Eco, a noção de serialidade não chega a ser uma novidade, pois a “arte clássica era amplamente serial e as vanguardas históricas, de vários modos, deixaram em crise a ideia romântica da criação como estreia no absoluto (com as técnicas de colagem, os bigodes na Gioconda, etc.) (ECO, 1989, p.133)”. Neste sentido, as transformações na indústria midiática e no comportamento do público coincidiram com o surgimento dos esquemas de repetição como a experiência de rever episódios ou partes deles pelos mais diversos motivos, desde análises dos momentos mais significativos, passando pelas questões emocionais, até a experiência de imersão e compartilhamento das inquietações em fóruns, de fãs e redes sociais. Deste modo, a serialidade se inscreve pela diferença no esquema da repetição.Ou seja, esse modo de organização dos episódios potencializa a estrutura serial. Para se diferenciar dos canais de televisão aberta norte-americana, a HBO assumir riscos “para arrecadar alguns dólares extras a cada mês de interessados em ver algo que não está na TV aberta” (KELSO, 2008 in LEVERETTE, 2008, p. 49).

A presente proposta de trabalho pretende abordar a ficção seriada brasileira na TV a cabo (2012/2013), levando em consideração as características de serialidade definidas por Christine Geraghty (1981): a organização do tempo, o sentido de um futuro não escrito e o entrelaçamento de histórias. A análise privilegiará os desdobramentos da Lei 12.485/2011, conhecida como lei da TV a Cabo, procurando identificar através das séries exibidas pela HBO: ‘(fdp)’, que possui um núcleo fixo de personagens, com a entrada de novos personagens em cada episódio e ‘Destino: São Paulo’, que trata das dificuldades de seis imigrantes na capital paulista, se a recente lei da TV a Cabo favorece mudanças no perfil do mercado audiovisual brasileiro, assim como se permite a exploração da da serialidade, em todas as suas extensões, tal como ocorreu com a televisão norte-americana.
Bibliografia

AKAS, Kim & McCabe, Janet. Quality TV - Contemporary American Television and Beyond. Londres, I.B.Tauris & Co Ltd, 2007.

ECO, U. A inovação no seriado. In: Sobre Espelhos e Outros Ensaios, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

GERAGHTY, C. The Continuous Serial — A Definition. (1981). In.: Richard Dyer, Christine, Marion Jordan, Terry Lovel, Richard Paterson and John Stewart. Coronation Street, London BFI. Disponível em: () Ultimo acesso: 28 mar 2013.

JENKINS, H. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

JOST, F. Do que as séries americanas são sintoma? Porto Alegre: Editora Sulina, 2012.

JOHNSON, S. Surpreendente: a televisão e o videogame nos tornam mais inteligentes. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

LEVERETTE, M. It’s Not TV: Watching HBO in the Post-Television Era. Routledge: Nova York, 2008.

MITTEL, J. Complexidade narrativa na televisão americana contemporânea. Revista Matrizes, ECA/USP, V. 5, N. 2 (2012)