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  Título
O som no found footage de horror brasileiro
Autor
Rodrigo Octávio D Azevedo Carreiro
Resumo Expandido
A pesquisa que gerou este trabalho procura analisar, a partir de uma abordagem estilística, a construção narrativa de falsos documentários de horror. Além de catalogar cerca de 200 exemplares feitos nos últimos 20 anos, tenho procurado examinar os padrões de estilo empregados de modo recorrente pelos diretores desses filmes.



O foco da análise recai sobre três filmes brasileiros de found footage: os longas-metragens “Desaparecidos” (2011) e “Matadouro” (2012), e o curta “Inquérito Policial Nº 0521/09” (2011). As estratégias de design de som desses três títulos diferem bastante entre si.



Realizado de forma amadora (o modo de produção certamente influenciou a decisão de adotar a estética do found footage, que mimetiza procedimentos estilísticos típicos de registros amadores de som e imagem), "Matadouro" não exibe nenhum crédito de pós-produção de som. De modo geral, a trilha de áudio parece consistir apenas da mixagem do som direto (captado com os microfones embutidos nas câmeras) com trechos esparsos de música drone criada pelo diretor, Carlos Junior. Apesar da pobreza de recursos, ou por causa dela, investe fortemente na verossimilhança documental, mas também busca clareza narrativa.



Produzido com orçamento de R$ 55 mil e equipe de produção de 22 pessoas, "Desaparecidos" tem som construído na fase de pós-produção, para dar a impressão de que utiliza apenas o som direto. Em termos sonoros, é o título mais alinhado às produções internacionais, já que busca o equilíbrio entre legibilidade narrativa e verossimilhança documental (ALTMAN, 1992) para reforçar o efeito do real (BARTHES, 1972) capaz de gerar no espectador o afeto do horror (CARROLL, 1999).



A trilha sonora reproduz algumas estratégias de sonorização que constituem, desde a segunda metade dos anos 2000, os paradigmas sonoros principais dos filmes do subgênero: (1) uso discreto dos canais surround, (2) ausência de música, (3) ênfase nos ruídos da manipulação dos equipamentos de captação, (4) vozes sobrepostas em trechos sem importância para a história narrada, e (5) uso amplo dos sons fora de quadro para gerar horror.



Já “Inquérito Policial Nº 0521/09” é composto por duas sequências que tratam o som de modo muito distinto entre si. A primeira utiliza imagens supostamente oriundas de câmeras de vigilância que registram o assassinato de uma garota por um casal. No final da seqüência, um invasor não identificado invade o prédio, mata os agressores e leva o corpo da garota morta.



A segunda seqüência consiste na exibição de imagens registradas durante uma batida policial. Essa blitz teria acontecido no apartamento onde moraria o misterioso invasor da primeira sequência. Nela, o design de som apresenta como referência principal o filme espanhol “[Rec]” (2007). Todas as características paradigmáticas do subgênero estão presentes.



A primeira sequência aposta numa concepção sonora simples e incomum, mas que ressalta o assincronismo entre sons e imagens. Esse tipo de assincronia tem sido historicamente valorizado, em textos teóricos formalistas sobre o uso do som no cinema, desde o manifesto assinado por Eisenstein, Alexandrov e Pudovkin, em 1928 (EISENSTEIN, 2002). Outros teóricos - Béla Balazs (1970), Rudolf Arnheim (1989) e Basil Wright (1985), por exemplo – preconizaram a importância da assincronia entre sons e imagens para a construção de uma narrativa mais rica.



A análise do som nos três found footage brasileiros mostra que seja adotando padrões de estilo mais tradicionais (como ocorre em “Desaparecidos”, “Matadouro” e na segunda parte de “Inquérito Policial”) ou optando por uma abordagem menos comum (caso da primeira parte desse último), os falsos documentários nacionais se caracterizam pelo grau de importância elevado que dão à verossimilhança documental, tornando esse princípio tão ou mais importante que a clareza narrativa nos filmes de found footage.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Sound theory, sound practice. New York: Routledge, 1992.

ARNHEIM, Rudolf. A arte do cinema. Lisboa: Edições 70, 1989.

BALÁZS, Béla. Theory of the Film: Character and Growth of a New Art. New York: Dover,1970.

BARTHES, Roland. “O efeito do real”. In BARTHES, Roland et al. Literatura e semiologia. Petrópolis: Vozes, 1972 (Pp. 35-44).

CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas: Editora Papirus, 1999.

EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

WRIGHT, Basil; BRAUN, B. Vivian. Manifesto: Dialogue on Sound. In: WEIS, Elisabeth; BELTON, John (Orgs.). Film Sound: Theory and Practice. New York: Columbia University, 1985.