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  Título
A poética do desaparecimento: notas sobre O Eclipse e Linz
Autor
Camila Vieira da Silva
Resumo Expandido
Nos dez minutos finais de O Eclipse (1962), de Michelangelo Antonioni, a protagonista Vittoria (Monica Vitti) caminha em uma calçada e observa as imponentes árvores cujas copas preenchem o céu. Ela parte daquele lugar e não voltamos mais a vê-la. O que é possível ver são recortes de um espaço urbano, praticamente vazio. O filme se rende a detalhes de uma paisagem: tijolos entulhados, uma esquina com cerca de madeira, um galão de água transbordante, prédios com vigas expostas, parques abandonados, a faixa de pedestre em uma larga avenida, onde alguns poucos transeuntes passam em meio à calmaria da cidade.



O desaparecimento da personagem de O Eclipse leva o espectador a uma inflexão do olhar para uma paisagem dotada de mistério: um enigma toma o desfecho da narrativa. Tal atmosfera misteriosa já pairava ao longo do filme e se anunciava na fragilidade de seus personagens e de suas relações pouco sólidas. No momento em que os personagens podem se entregar a situações concretas, eles somem, fogem, escapam, desaparecem. Ao final, nada parece definido e seguro. A figura humana desaparece e o que fica é a paisagem. Como se o personagem estivesse ali por acidente e precisasse seguir seu rumo, sempre à sombra de um extracampo, que o protege da vigilância do olhar do espectador.



Em Linz – Quando Todos os Acidentes Acontecem (2013), de Alexandre Veras, a sequência inicial apresenta um homem caminhando num espaço desértico - areia, vento e sol a pino –, vagando com seus cabelos emaranhados, olhar perdido e andar cansado. Mais tarde, saberemos que este homem se chama Linz (Dellani Lima), que trabalha como transportador e deve entregar uma encomenda para uma das moradoras de Tatajuba – vila soterrada pelas dunas, no litoral Oeste do Ceará.



Neste lugar ermo, o corpo de Linz – assim como o de Vittoria em O Eclipse – é o motor do acidente. É um corpo que vaga, que se guia pelo vento, que se cansa, que some na paisagem, entregando-se discretamente à condição de isolamento. No filme de Alexandre Veras, o enigma se desdobra na recusa da moradora de Tatajuba em receber a encomenda que Linz trouxe. A encomenda e a carta são de um filho que foi embora. A leitura da missiva não nos é dada; só Linz tem acesso ao conteúdo daquela carta, que ele mesmo queima aos poucos diante do nosso olhar.



O desaparecimento é o acidente primordial e recorrente de Linz – Quando Todos os Acidentes Acontecem: a cidade que é soterrada pelo constante movimento das dunas; o filho que partiu; a carta que se desintegra; Linz que desaparece num mergulho inesperado ao mar. Um enigma também abarca o desfecho da narrativa: com o desaparecimento do protagonista, a paisagem se sobressai: da areia ao mar, da noite ao dia, das estrelas ao sol.



Como pensar uma poética do desaparecimento a partir de O Eclipse e Linz – Quando Todos os Acidentes Acontecem? Quais espaços de invisibilidade a narrativa destes filmes evocam e a partir de quais diferenciações? Este trabalho procura apontar as tensões que se estabelecem entre campo e extracampo, dentro e fora, visível e invisível nos dois filmes e refletir sobre o desaparecimento como desafio ético de criação de mundos possíveis no cinema.

Bibliografia

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BONITZER, Pascal. Peinture et Cinéma: Décadrages. Paris: Cahiers du Cinéma / Editions de l‟Etoile, 1985.



COMOLLI, Jean-Louis. Fim do fora-de-campo? In: Catálogo do ForumDoc.BH. Belo Horizonte: Filmes de Quintal/Fafich. 2006.



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LOPES, Denilson. “Invisibilidade e Desaparecimento”. In: MARGATO, I; GOMES, R.C. (org.). Espécies de Espaço: territorialidades, literatura e mídia. Belo Horizonte: UFMG, 2008.



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