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  Título
Mudanças de rota: quando o diretor vira personagem de um documentário
Autor
Bertrand de Souza Lira
Resumo Expandido
No processo de realização da maioria dos documentários, o diretor sempre deve contar com a imprevisibilidade no corpo a corpo com o real, no entanto, planeja suas filmagens sem desejar mudanças bruscas de rumo no que concerne ao tema e às suas estratégias de abordagem empregadas. A elaboração de um roteiro para documentário, antes inimaginável, hoje se tornou corriqueiro, sobretudo quando se está em jogo financiamento público via editais. Os manuais de roteiro de documentário estão começando a surgir, timidamente, é certo, mas são categóricos em apresentar modelos para a escrita de propostas, argumento e tratamento onde possamos “visualizar” a ordem das sequências e seu tratamento visual e sonoro (PUCCINI, 2009). Seguem modelos propostos por editais como o DocTv da TV Cultura/governo federal e o Rumos Culturais do Instituto Itaú Cultural. São sugeridas a eleição e a descrição de objetos, justificativas e a simulação das estratégias de abordagem na captação e edição de imagens. Em resumo, o realizador deve pensar no controle da obra em seus múltiplos aspectos e etapas. No entanto, tais manuais estão sempre enfatizando a tensão do embate com o real e suas eventualidades. O que acontece, então, quando há uma mudança radical nas formas de abordagem em pleno processo de realização?

Pretendemos nos debruçar aqui sobre dois documentários: Oferenda (Ana Bárbara Ramos, 2011), uma produção paraibana com 17min de duração, e Santiago (João Moreira Salles, 2007), 80min, Rio de Janeiro. Em ambos, seus diretores passaram de observador a personagem durante o processo de realização, mudando a estratégia de abordagem original _ em Oferenda, observativa, em Santiago participativa, segundo a classificação proposta por Nichols (2005), para um modo de representação predominantemente performático.

Esses documentários se tangenciam em dois momentos: ambos tinham propostas diferentes de representação e foram igualmente interrompidos durante o processo e retomados tempos depois com a decisão de incorporar as próprias vivências dos diretores como problemática de suas obras. João Moreira Salles inicia seu filme em 1992 sobre Santiago, o ex-mordomo de sua família, interrompe as filmagens e volta a trabalhar o material bruto em 2005, desta vez como personagem do filme, refletindo sobre o que havia filmado, a relação de poder entre diretor e personagem e sobre o próprio fazer documentário. Ana Bárbara Ramos, por sua vez, tinha o propósito de documentar, nos festejos de Iemanjá de 2009, a religiosidade de um mestre-de-obras (e pai-de-santo) que havia contratado para um serviço temporário na reforma de sua casa. Interrompe o trabalho e só retoma as gravações no ano seguinte, na mesma data (08 de dezembro), agora como personagem do seu próprio documentário.

O modo de representação performático, para Ramos (2008) “ética-modesta”, enfatiza, em forma de diário e tom autobiográfico, a subjetividade e a dimensão afetiva do realizador nas suas asserções sobre o real, mais do que em qualquer outro modo de abordagem. Esse tipo de narrativa documentária se estrutura em relatos menos convencionais articulando mais livremente o real e o imaginado, numa perspectiva marcadamente pessoal e expressiva.

Assim, vamos tentar identificar essa estética/ética performática nos documentários Oferenda e Santiago relacionando seus fundamentos com outro modo de abordagem do real, o documentário reflexivo, pela proximidade dessas estratégias. A ética reflexiva lida com a veracidade da própria representação, expondo ao espectador métodos e escolhas empregados no trato com o real. Esses dois modos de abordagem, presentes nos filmes supra-citados e objetos da presente proposta, serão discutidos à luz das teorias documentárias contemporâneas.

Bibliografia

DA-RIN, Sílvio (2004). Espelho Partido: tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Azougue Editorial.

FREIRE, Marcius. Documentário: ética, estética e formas de representação. São Paulo: Annablume, 2012.

GAUTHIER, Guy. O documentário: um outro cinema. Campinas, SP: Papirus, 2011.

LINS, Consuelo e MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas, SP: Papirus, 2005.

PUCCINI, Sérgio (2009). Roteiro de documentário: da pré-produção a pós-produção. Campinas, SP: Papirus.

RABIGER, Michael. Direção de Documentário. Ed: Campus e Focal Press, 2011.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal...o que é mesmo documentário? São Paulo: editora Senac São Paulo, 2008.

TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (org.). Documentário no Brasil: tradição e transformação. São Paulo: Summus, 2004.