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  Título
Andy Warhol: dos retratos cinemáticos aos testes de câmera
Autor
Annateresa Fabris
Resumo Expandido
De acordo com Michael Lüthy, é preciso analisar a obra de Andy Warhol em sentido global, a fim de captar uma intencionalidade subjacente a todos os trabalhos. Ou seja, é necessário considerar quadros e filmes como expressão de um mesmo procedimento artístico. Embora a bibliografia especializada tenha descartado essa aproximação, ela é pertinente por vários motivos: 1. em termos conceituais, quadros e filmes estão estreitamente relacionados na estratégia warholiana; 2. o desenho formal das películas, que põe em xeque as convenções narrativas do cinema, tem um paralelo nas serigrafias, que vão de encontro aos parâmetros da pintura abstrata graças à volta à figuração; 3. o reconhecimento do cineasta como um “extraordinário artista de vanguarda” já ocorre em 1964, antecedendo a avaliação crítica da obra plástica, que, ainda hoje, suscita reticências.

Se bem que Lüthi proponha começar a análise da obra de Warhol pelo cinema, adotar-se-á o procedimento inverso, não por um motivo hierárquico, mas para dar a ver a origem dos “testes de câmera”, realizados entre 1964 e 1966. No começo da década de 1960, o artista faz algumas experiências com as cabines fotográficas automáticas, cujos resultados são autorretratos e retratos de amigos. Atraído pela extrema mecanização do processo – que deseja colocar à prova –, o artista, posicionado fora da cabine, fornece indicações, além de ser o agente catalisador de uma encenação, na qual o modelo pode ensaiar a própria representação como personagem, construindo uma narrativa que será, em seguida, rearranjada, quando as tiras fotográficas são transpostas para a superfície serigráfica. È o que acontece com alguns retratos encomendados, entre os quais “Ethel Scull trinta e seis vezes” (1963), que apresenta efeitos cinemáticos em virtude da introdução de uma dimensão temporal peculiar.

Dando a impressão de ter sido montado com fotogramas de um retrato filmado, “Ethel Scull trinta e seis vezes” está na base dos quinhentos “testes de câmera”, realizados ao longo de dois anos. Os retratos, em preto e branco e destituídos de som, são tomados na Factory, obedecendo a um padrão único: sentado numa cadeira, iluminada por um foco de luz, o modelo deveria olhar para uma câmera fixa, montada num tripé, devendo permanecer o mais imóvel possível. A ilusão de uma fotografia parada num meio móvel como o filme é magnificada pela exibição ao ritmo de dezesseis quadros por segundo.

Ao aproximar-se de uma aparente narrativa fílmica nos retratos das cabines automáticas e nas serigrafias decorrentes deles e ao investir os testes de câmera do sentido da pose, próprio da fotografia, Warhol não só embaralha suportes, como redefine a ideia de retrato, no momento em que o despoja de seus atributos tradicionais para convertê-lo num processo de abstração.
Bibliografia

"Andy Warhol Photography". Thalwil-New York: Edition Stemmle, 1999; ANGELL, Callie. Andy Warhol, film maker. In: "Andy Warhol – 1956-86: mirror of his time". Pittsburgh-Tokio: The Andy Warhol Museum-Asahi Shinbun, 1996, p. 176-187; BAUME, Nicholas. About face. In: "About face: Andy Warhol portraits". Hartford-Pittsburgh: Wadsworth Atheneum-The Andy Warhol Museum, 1993, p. 86-98; BIESENBACH, Klaus. Imagem corpo máquina. In: "Andy Warhol: motion pictures". São Paulo: Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2005, s. p.; HUXLEY, Geralyn. Warhol’s films: the world through Warhol’s eyes. In: MEYER-HERMANN, Eva (org.). "Andy Warhol: a guide to 706 items in 2 hours 56 minutes". Rotterdam: NAi Publishers, 2007, s.p.; LÜTHI, Michael. El retorno aparente de la representación: estructuras ambiguas en la obra temprana de Warhol. In: "Andy Warhol: 1960-1986". Barcelona: Fundació Joan Miró, 1996, p. 181-187.