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  Título
Gravitas anima: maturidade, estilo, género e tema na animação atual
Autor
Luís Carlos da Costa Nogueira
Resumo Expandido
O cinema de animação conhece na atualidade um sucesso e uma aceitação sem precedentes a nível mundial. O público tornou-se mais vasto e seguramente diversificado, contando com mais adultos entre a sua audiência massiva. Como se explicará tal facto? Talvez porque as histórias – ou, pelo menos, a sua abordagem –, sejam cada vez mais profundas, mais sofisticadas, mais eruditas, ou, como se costuma dizer, mais adultas. Essa tende, pelo menos, a ser a principal razão apontada.

Mas o que significa a maturidade neste contexto? Em que sinais ou formas ou elementos se pode identificar a seriedade temática, a profundidade dramática e a densidade narrativa num género que usualmente é relacionado, na sua versão mais mainstream – aquela que aqui nos interessa –, com um público infantil, com as suas tradicionais propostas de universos de sonho, repletos de cor, maravilhosamente musicados e diletantemente escapistas, habitados por personagens otimistas, heróicas, puras ou bondosas?

Para responder a estas questões, colocamo-nos aqui em três campos de análise e reflexão que, esperamos, nos permitirão esclarecer em que consiste a maturidade que, a este propósito, tantas vezes é aludida, mas não – parece-nos – suficientemente explicitada.

Em primeira instância, far-se-á um inventário e uma análise temática no sentido de perceber se existiram e quais as consequências de eventuais mudanças nos assuntos abordados: de que modo o humanismo, a subjetividade, a solidão, o envelhecimento, a identidade, o conflito, a dúvida, a perda, a impotência, a complexidade, a finitude, a dor, o arbítrio, a guerra ou a morte – alguns dos temas que inegavelmente associamos à idade adulta – são tratados nestes filmes?

Em segunda instância, no que respeita a uma abordagem de género, dar-se-á especial atenção a certos tipos de filmes usualmente assumidos como mais adultos: o drama, género de referência no âmbito cinematográfico, mas não só, e medida a partir da qual se tem procurado compreender o humano de forma mais completa e profunda; o documentário e a autobiografia (géneros assentes numa lógica testemunhal ou mesmo confessional), cujo cruzamento com a animação tem conhecido especial relevância nos últimos tempos; a contraposição entre fantástico e ficção científica que podemos encontrar em certas cinematografias (a americana e a japonesa, sobretudo), sendo esta entendida, de alguma maneira, como uma atualização ou maturação daquele.

Numa terceira instância, ter-se-á em mente a questão do estilo, com o propósito de se delinear uma espécie de morfologia da maturidade no cinema de animação, ou seja, de encontrar aquelas características e traços que usualmente ligamos a uma atitude adulta, seja de um ponto de vista ético seja estético: o realismo em vez da fantasia, a solenidade em vez da paródia, a contenção em vez da hipérbole, o sério em vez do lúdico, o funéreo em vez do onírico, o cínico em vez do caricatural, o pathos em vez do patético, o cinismo em vez do slapstick, o escatológico em vez do dócil, o deadpan inexpressivo em vez do otimismo radiante.

Mediante estes três níveis de análise e reflexão, esperamos poder esboçar uma espécie de semiótica da maturidade e, por contraponto e equivalência, arriscar uma semiótica da infância. E, desse modo, compreender por que motivos filmes como Beauty and the Beast, Up ou Toy Story 3 foram nomeados para o Oscar de Melhor Filme (e não, simplesmente, de melhor filme de animação) ou por que razões Persepolis e Waltz with Bashir concorreram à Palma de Ouro em 2007 e 2008, para além do reconhecimento e prestígio no âmbito da crítica.

Bibliografia

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