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  Título
Os fanáticos de Taquarussú (1914): uma “excursão foto-cinematográfica”
Autor
alice dubina trusz
Resumo Expandido
A presente comunicação apresenta uma investigação histórica sobre o filme Os fanáticos de Taquarussú (1914), trazendo aspectos de seu processo produtivo e de sua trajetória de exibição. O filme, hoje desaparecido, documentava as manobras das forças militares estaduais (RS) e federais durante a Guerra do Contestado, conflito que ocorreu entre outubro de 1912 e agosto de 1916, na região da fronteira entre Santa Catarina e Paraná, rica no cultivo de erva-mate e madeira e objeto de antigas disputas territoriais entre os dois estados. A falta de regularização da posse de terras e a sua concessão, pelo poder público, a empresários estrangeiros do ramo ferroviário, agravaram a insatisfação da população cabocla que ali vivia e ocupava o território há décadas, desencadeando a revolta dos “fanáticos” contra o governo e empresários, num movimento que acabou assumindo também orientação religiosa e forte messianismo.

O filme foi realizado por Emílio Guimarães, que, em abril de 1914, deixou a sociedade e a direção artística da revista Kodak, em Porto Alegre, para partir em “excursão foto-cinematográfica” para a localidade de Taquarussú, no município de Curitibanos/SC, como correspondente da revista e do jornal A Noite, da mesma empresa. Acompanhado de um assistente, Emílio captou suas imagens integrado às tropas governistas, cujas manobras e deslocamentos documentou. Desta expedição resultaram um filme e diversas fotografias, que foram publicadas na revista Kodak entre maio e julho de 1914, como reportagem suplementar, antes mesmo do seu regresso a Porto Alegre. No final de junho, Emílio já estava de volta à capital gaúcha, onde finalizou e montou o filme, que foi exibido com exclusividade no cinema Apollo no mês seguinte. A seguir, Emílio viajou para Pelotas, onde tentou exibi-lo, obtendo sucesso em Curitiba e críticas negativas em São Paulo. A pesquisa já realizada indica que o filme pode ter sido produzido por Emílio e sua produtora própria, a Sul Brazil, e que a distribuição também foi feita de modo independente.

Se, por um lado, a investigação dá continuidade ao processo de esclarecimento e fundamentação documental das atividades e produções de Emílio Guimarães em Porto Alegre entre 1911 e 1915, a sua prioridade é, a partir da análise pontual do processo produtivo e da trajetória social deste filme, permitir uma visão mais complexa dos modos de produção cinematográfica no Brasil na década de 1910, em particular dos processos e práticas que envolveram a realização e exibição dos filmes de não–ficção. O seu intuito é trazer subsídios para futuras e mais amplas análises, fundadas no cotejamento de pesquisas sobre os processos de produção de outros filmes do próprio Emílio e de outros cinegrafistas seus contemporâneos, atuantes em Porto Alegre e em outras cidades do país. Desta perspectiva, vale ressaltar, desde já, a heterogeneidade das expectativas e iniciativas de realizadores e exibidores e a importância da filmografia de não-ficção para os espectadores da época como traços característicos daquele contexto no que respeita à qualidade da inscrição do cinema na dinâmica social mais ampla e da sua construção como fenômeno cultural. Da mesma forma, reafirma-se o caráter imprescindível da consideração das redes que interligavam os diferentes setores do cinema entre si e do cinema com a sociedade para uma melhor compreensão dos modos de produção cinematográfica.

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