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  Título
ENCENAÇÕES MIDIÁTICAS E A VINDA DA FAMÍLIA REAL PARA O BRASIL
Autor
Jean Raphael Zimmermann Houllou
Resumo Expandido
No presente trabalho propomos examinar comparativamente o filme Carlota Joaquina: Princesa do Brazil e a minissérie O Quinto dos Infernos a partir das maneiras como eles encenam os fatos históricos. Os dados retirados da comparação foram somados a uma investigação sobre os contextos históricos e as críticas jornalísticas da obras com intuito de inferir acerca do grau de convergência memorial dessas obras midiáticas entre a audiência nos momentos de suas exibições.

Para proceder a análise utilizamos os métodos defendidos por Marc Ferro. O autor afirma que para analisar uma produção audiovisual não é suficiente visualizar os elementos internos da obra, além disso, é necessário observar dados referentes ao contexto produção.

Nesse trabalho também procuramos inferir sobre o grau de convergência memorial entre a audiência com relação ao exibido pelas obras midiáticas. Para tanto, observamos as críticas jornalísticas e os números de bilheteria e audiência. Nessa análise utilizamos os conceitos de memórias fortes e fracas de Joël Candau.

Analisamos e comparamos as críticas jornalísticas realizadas sobre o filme e a minissérie e destacamos o tratamento dado pela crítica aos pontos que são semelhantes nas duas obras. O recorte temporal dos periódicos pelos quais pesquisamos as críticas foi de janeiro a junho de 1995 e janeiro a abril de 2002, períodos em que as obras audiovisuais estavam sendo exibidas. As obras audiovisuais foram divulgadas nacionalmente, por isso, temos prioridade para periódicos de circulação nacional. Pesquisamos a “Revista Veja”, “Revista Isto É” e o “Jornal Folha de São Paulo”.

Observamos que entre a produção do filme “Carlota Joaquina: Princesa do Brazi” e a exibição do mesmo, ocorreu uma mudança contextual com a implantação do Plano Real. O plano econômico trouxe uma sensação de melhoria que surtiu efeitos na campanha presidencial de 1994. A partir dessa mudança, inferimos que foi possível consumir a maneira debochada com que o filme apresentava a história e a partir dela estabelecer memórias de duas maneiras diferentes, que correspondiam, cada qual, a um dos dois grandes pontos de vistas que definiram a campanha eleitoral. Uma grande parte do público consumiu o filme como se aquele passado colonial também se referia a um passado recente, em que os planos econômicos fracassavam, mas que era diferente do presente em que a economia estava estável. Para o público descrente acerca do Real, foi possível consumir a película da maneira pensada por Camurati, associando diretamente o passado representado na película com o presente.

No que tange à minissérie O Quinto dos Infernos, concluímos que a maneira satirizada com que a obra apresenta os personagens históricos foi criticada pelos jornalistas e teve uma audiência abaixo das expectativas porque grande parte da população brasileira não estava mais disposta a ler a sua história dessa maneira, seja o passado recente, seja o colonial. Muitos brasileiros assumiram a estabilidade da moeda e a consolidação do regime democrático como uma conquista do passado que deveria ser preservada. Por isso, não estavam mais dispostos a ridicularizar sua história como fazia a minissérie. Dessa forma, podemos inferir que a minissérie não conseguiu que a sua organização memorial convergisse entre os indivíduos e se configurasse numa memória forte da mesma maneira que o filme.

Bibliografia

BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

BUTCHER, Pedro. Cinema brasileiro hoje. São Paulo: Publifolha, 2005.

CANDAU, Joël. Memória e indentidade. São Paulo: Contexto, 2011

CARDOSO, Fernando Henrique. A Arte da Política: a história que vivi. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia a republica momentos decisivos. 2. ed. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.

FERRO, Cinema e História. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1992.

FERRO, Marc. A manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação. São Paulo, Ibrasa, 1983.

JABOR, Arnaldo. Mulheres estão parindo um novo cinema. Folha de S. Paulo, São Paulo, Ilustrada, p. 5-7, 24/01/1995.

SCHVARZMAN, Sheila As encenações da História. Revista História, São Paulo, vol. 22, núm. 1, 2003.