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  Título
Em Busca de um Lugar Comum:a produção de homens-livres no documentário
Autor
Patricia Rebello da Silva
Resumo Expandido
Subvertendo uma lógica de ocupação social típica do capitalismo, segundo a qual os andares mais altos estão reservados para aqueles que ocupam as posições mais altas no ranking da hierarquia social, na Favela da Rocinha (RJ) são os mais desfavorecidos que desfrutam das melhores vistas. Todavia, não se pode deixar de pensar o quanto este paradigma social contém em si uma paródia de sua própria crueldade. Longe do solo, os “homens inúteis”, aqueles tornados incapazes de funcionar “adequadamente”, e que por isso não encontram lugar no sistema, se sobressaem por subverter o próprio regime estético em que estão inseridos. É essa mudança na percepção do sujeito que surge no documentário Em Busca de um Lugar Comum (2012), que acompanha os passeios pelas favelas cariocas realizados por agências de turismo que, ultimamente, têm se especializado nessa nova modalidade de visita. Anunciadas mundo afora como um dos principais cenários da doença social brasileira, as favelas se descobriram transformadas, em anos recentes, em “pontos turísticos”, rearticulando os roteiros tradicionais. Ao longo de oitenta minutos, o documentário investiga os desejos e as imagens envolvidos na disputa pela construção do imaginário desse destino inusitado.

Em livro onde discute o conceito de estética no ocidente, Jacques Rancière escreve que, antes de ser transformada em domínio do saber, o tecido sensível daquilo que chamamos de “arte” compreendia um território onde as coisas não eram feitas com a intenção de serem deslocadas para uma esfera exterior, onde o próprio ato continha em si a causa, e existia pelo prazer de existir. Arte era produto dos “homens livres”, um gesto encerrado em si, executado pelo prazer da experiência de estar em cena. No centro de Em Busca de um Lugar comum descobrimos uma experiência similar de recaptura de domínios. Se a melhor vista pertence àqueles que dispõe de tempo para dela usufruir, ela também é o passaporte para que esses homens tornados inúteis se apropriem dessa liberdade de desfrutar a experiência de existir, e sejam pensados como aquilo que verdadeiramente são: homens livres, matéria encarnada das potências da vida se transformando em meio a processos complexos de modelação/modulação à dinâmica do contexto.

Em Busca de um Lugar Comum faz parte de uma significativa parcela da produção brasileira de documentários que se dedica ao exercício de uma forma de pensamento sobre as condições do território urbano, o mapeamento de uma geografia de costumes, de uma antropologia do espaço e das transformações de paisagem, política e sociedade nacionais. Se ao longo de sua história, as variações que estabeleceram as diferentes maneiras do documentário se aproximar e registrar o mundo foram quase sempre determinadas por uma interação criativa entre técnica, estética e ideologia, esses filmes nos recordam da capacidade do mecanismo audiovisual em nos confrontar com uma dimensão invisível da vida, que se recusa a ser capturada em discursos pré-prontos, e que não se reduz aos códigos de visibilidade e sistemas de controle. Este trabalho se desenvolve em torno destas questões.

Bibliografia

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RAMOS, F. Mas afinal... o que é mesmo o documentário? São Paulo: SENAC, 2008.

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