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  Título
Os espectadores/diretores/exibidores de Revelando os Brasis IV
Autor
Dafne Reis Pedroso da Silva
Resumo Expandido
A proposta deste trabalho é compreender quem são os realizadores do Rio Grande do Sul que participaram da quarta edição do projeto Revelando os Brasis, quais são suas trajetórias, relações com as cidades, com as histórias dos curtas-metragens, com os processos produtivos e com as exibições dos filmes, no sentido também de entender as posições que tais sujeitos ocupam e como tensionam o processo comunicacional. O Revelando... tem a proposta de promover oficinas de capacitação audiovisual para habitantes de pequenos municípios brasileiros, situa-se no espaço audiovisual (BARONE, 2009) e há uma tentativa de socializar esses sujeitos selecionados no domínio de técnicas e de padrões próprios desse espaço, de maneira adaptada às condições de realização do projeto. O cinema do Revelando... compartilha elementos do Cinema de bordas (SANTANA; LYRA, 2006; SANTANA, 2012), e se articula com elementos do Cinema amador, trabalhado por Roger Odin (1999) e Laurent Creton (1999). As duas perspectivas enfatizam a importância do contexto de produção.

Ao selecionar e capacitar moradores de pequenas cidades para serem diretores de curtas-metragens, o Revelando... colabora para a discussão sobre a questão das posições assumidas por produtores e receptores de produtos midiáticos. Maldonado (2010) aponta algumas das mudanças que vêm sendo feitas ao longo dos anos e intensificadas com as tecnologias digitais, sendo que a “socialização das técnicas de produção comunicativa” das quais o autor trata está diretamente ligada ao propósito do fenômeno das oficinas de capacitação audiovisual anteriormente citado. A profusão de novas criações midiáticas feitas por amadores, como é o caso do Revelando os Brasis, aproxima os espaços de produção e de recepção e colabora para o rearranjo dos espaços comunicacionais. Entretanto, para Cogo e Brignol (2010) não ocorre uma eliminação das hegemonias, mas surgem essas aproximações cada vez mais frequentes em que os sujeitos podem experimentar outro modo de ser no mundo midiático.

Entendo que a abordagem deste projeto problematiza a divisão “diretor” x “espectador”, no caso do espaço audiovisual. Com o decorrer da participação no Revelando os Brasis, o sujeito selecionado vai se transformando de espectador (alguns com certa experiência em alguma produção audiovisual) e exibidor (do Cine Mais Cultura, por exemplo) em aluno de oficinas de capacitação (iniciado em um mundo profissional da produção audiovisual), realizador (roteirista/diretor/produtor) e exibidor (colaborador nas exibições itinerantes nas suas cidades e responsável por uma circulação posterior dos filmes). Aquele que está envolvido na direção/roteiro/produção é também espectador e exibidor dos curtas do Revelando... e de outros produtos midiáticos/fílmicos. Como chamar alguém que é espectador de filmes, aluno de oficinas de capacitação, diretor/roteirista e exibidor? No caso do Revelando os Brasis, optei por compreender os realizadores/produtores em suas múltiplas funções relacionadas ao espaço audiovisual, pois eles são, ao mesmo tempo, espectadores/diretores/exibidores. Essas relações, além de possibilitarem outras experiências, configuram percepções e competências.

A assistência cotidiana de filmes, por exemplo, proporciona a constituição de conhecimentos e de gostos sobre formatos, gêneros, elementos narrativos, que podem acabar por mediar ou inspirar as produções dos envolvidos na realização dos curtas-metragens do Revelando... . Pensar essas trajetórias serve-me para considerar que esses sujeitos vivem em uma sociedade atravessada/configurada pela mídia. Por sua vez, as oficinas de capacitação e a gravação dos curtas-metragens modificam a relação desses sujeitos com os produtos audiovisuais. Ao serem socializados nas técnicas de produção, ampliam seus repertórios e o entendimento sobre os modos de realização dos filmes.

Bibliografia

BARONE, João Guilherme B. Reis e Silva. Comunicação e Indústria Audiovisual: cenários tecnológicos e institucionais do cinema brasileiro na década de 90. Porto Alegre: Sulina, 2009.

COGO, Denise; BRIGNOL, Liliane Dutra. Redes sociais e os estudos de recepção na internet. In: XIX Encontro da Compós, 2010, Rio de Janeiro. Disponível em: http://www.compos.org.br Acesso em: 20 de out. 2012.

CRETON, Laurent. L’ économie et les marchés de l’amateur. Communications, 68, 1999, p. 143-167.

MALDONADO, Alberto Efendy. Produtos midiáticos, estratégias, recepção: a perspectiva transmetodológica. Ciberlegenda, Rio de Janeiro, n.9, p.1-23, 2002. Disponível em: www.ciberlegenda.br. Acesso em: 19 de nov. 2012.

ODIN, Roger. La question de l’amateur. Communications, 68, 1999, p. 47-89.

SANTANA, Gelson; LYRA, Bernadette (Orgs.). Cinema de Bordas. São Paulo: Ed. a lápis, 2006.

SANTANA, Gelson. Introdução. In: ______ (Org.). Cinema de Bordas 3. São Paulo: Ed. a lápis, 2012.