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  Título
Performace e atração: a migração das imagens do cinema para o Youtube
Autor
CAROLINA OLIVEIRA DO AMARAL
Resumo Expandido
Este artigo pretende mostrar as estratégias de narração e performance presentes no conceito de “atração”, encontradas tanto nos vídeos performativos do site YouTube, como no cinema contemporâneo, usando como objeto de estudo sequências do filme Desejo e Perigo" (Lust, Caution, 2007, Ang Lee).

O conceito de “Atração” foi cunhado pelo autor Tom Gunning ao se referir ao Primeiro Cinema, feito até por volta de 1908, como “cinema de atrações”. Com filmes curtos, sem edição, e baseados principalmente na performance dos atores, o “cinema de atrações”, antes do parâmetro narrativo se estabelecer, já atraía o seu publico nos diversos locais onde era exibido. Um desses locais, eram os Vaudevilles, na época, um dos principais entretenimento de massa do ocidente. O Vaudeville era um espaço aberto a apresentações curtas, onde o performer criava e apresentava o seu próprio número, em meio a musicais, shows acrobatas e apresentações de clowns. As performances frequentemente dispensavam narrativa buscando na tecnologia e estética do vaudeville uma resposta emocional direta da platéia. Por conta disso, Henry Jenkins (2006) compara a estética e o funcionamento do Vaudeville ao YouTube, utilizando o conceito de Gunning para uni-los. Segundo Gunning, no “Cinema de Atrações” há um encantamento pela performance e pela tecnologia que ainda era novidade, algo que percebemos também vemos nos vídeos performáticos do site. Tereza Rizzo utiliza o termo YouTube Attractions para associar o site ao primeiro cinema. A autora argumenta que grande parte do material encontrado, tanto em um quanto no outro, não se preocupa em contar histórias ou desenvolver narrativas, apenas “confronta os espectadores com momentos de novidade, curiosidade ou sensacionalismo e os convida a parar e olhar”.

Em pesquisa no site sobre o filme Desejo e Perigo, dentre os principais resultados encontramos apenas duas sequências inteiras. São sequências performáticas, que se destacam do resto da narrativa: uma performance musical e uma performance sexual. A performance e sua forma de apresentação eruptiva quando posta dentro da narrativa, quebra a diegese, abandonando por minutos a lógica narrativa clássica. A estrutura, então, a partir de sua aparição passa a ser formada por número e narrativa, ou podemos dizer, atração e narrativa. Com os personagens olhando direto para a câmera, a performance fala ao espectador; cria um espaço compartilhado através da identidade de olhares entre atores e público, desenvolvendo o importante papel de inscrever o espectador dentro da narrativa. Por consequência, há um engajamento diferenciado, uma adesão afetiva do espectador ao espetáculo, propiciado pelo prazer que se sente ao assisti-lo.

As performances apresentam uma moldura narrativa que o fecham como uma atração em si, ao mesmo tempo em que fazem a narrativa, a qual estão integradas, se movimentar num outro regime de narração. O arranjo performático-narrativo de Desejo e Perigo permite com maior facilidade essa migração das sequências de atração que ganham outra forma de existência no YouTube: elas passam a ser arquivos do site. O espectador pode se relacionar apenas com as cenas que vê no computador, ver, rever, compartilhar ou relacionar a outras imagens presentes no site. Essas sequências gozam de uma autonomia referente: existem fora do filme, porém sempre referindo-se a ele.

O que queremos apontar, por fim, é que a "atração", própria dos vídeos da internet, do primeiro cinema, do vaudeville ou do cinema narrativo, também pode ser vista no cinema contemporâneo. As sequências performativas do filme que ganham uma sobrevivência como vídeos na internet, alargam a experiência de assistir ao filme, potencializando-a, com expectativas e engajamentos novos. Atualmente, o Youtube e o cinema narrativo são duas instâncias de narração que se interpelam e se intensificam, numa experiência que ultrapassa tanto os minutos do filme, quanto os minutos da performance na internet.
Bibliografia

BALTAR, Mariana. Tessituras do Excesso – Notas iniciais sobre o conceito e suas implicações a partir de Procedimento Operacional Padrão. Juiz de Fora: Compós, 2012.

BURGESS, Jean e GREEN, Joshua (org) Youtube e a revolução digital – como o fenomeno da cultura participative está transformando a mídia e a sociedade. São Paulo: Aleph, 2009.

GUNNING, Tom. The cinema of attractions: early film, its spectator and the avant-garde. In. STRAUVEN, Wanda. (org). Cinema of attractions reloaded. Amsterdam University Press, 2006.

JENKINS, Henry. YouTube and the Vaudeville Aesthetic. Confessions of a Aca-Fan(2006). Em: http://henryjenkins.org/2006/11/youtube_and_the_vaudeville_aes.html

KEATING, Patrick. Emotional Curves and Linear Narratives. In: The Velvet Light Trap, n 58. University of Texas Press, 2006

RIZZO, Tereza. You Tube: the New Cinema of Attractions. Scan Journal Vol 5 Number 1 May 2008.

VIEIRA, João Luiz. Cinema e Performance. In: XAVIEL, Ismail (org.) O cinema no século.RJ: Imago, 1996.