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  Título
A AUDIÇÃO NO CINEMA: PONTO DE ESCUTA, DOLBY E A 3a DIMENSÃO DO SOM
Autor
Leonardo Alvares Vidigal
Coautor
Marina de Morais Faria Novais
Resumo Expandido
Quando Eisenstein, Pudovkin e Alexandrov publicaram em 1928 a “Declaração sobre o futuro do cinema sonoro”, lamentaram que a sincronização do som com a imagem pudesse dar a esse conjunto uma autonomia que poderia inviabilizar a montagem tal como eles a haviam concebido. Em contraposição a essa tendência, discorreram sobre a contribuição que o som polifônico poderia trazer para o cinema, ao permitir o trabalho com a multiplicidade sonora na montagem do filme. De acordo com os autores, “apenas um uso polifônico do som com relação à peça de montagem visual proporcionará uma nova potencialidade no desenvolvimento e aperfeiçoamento da montagem” (2002, p. 226). Mais tarde, Eisenstein iria refletir sobre a música no cinema também em relação à profundidade da experiência sonora, na análise da montagem vertical de seu filme Alexander Nevsky (2002, p.106). Entretanto, o cineasta soviético não conseguiu concretizar integralmente as possibilidades da polifonia e da montagem vertical, principalmente por causa das limitações do modo de gravação ótico de áudio usado na época, onde som e imagem eram registrados conjuntamente na película.



As experiências com a profundidade polifônica no som, ou com a simulação desta nas salas de cinema, começaram a ser concretizadas apenas em 1940, quando Walt Disney, William Garity, engenheiro-chefe de som dos estúdios do animador americano, e a companhia RCA desenvolveram o sistema Fantasound para a exibição do filme Fantasia. O Fantasound era um sistema estereofônico com gravação ótica e reprodução composta por 96 altofalantes dispostos em seis salas de cinema (HANDZO,1985, p.419). Posteriormente, o Fantasound seria considerado um dos precursores do sistema Dolby Stereo, que foi usado na regravação e remixagem de toda a trilha musical de Fantasia, realizadas para o seu relançamento em 1982.



Este sistema só se tornou possível após a transição da gravação ótica para o registro sonoro em fita magnética, separando som e imagem na produção. Também permitiu a portabilidade dos equipamentos de áudio, abrindo as portas do cinema para a expressão vocal e musical em documentários, no chamado som direto (VIDIGAL, 2009). A gravação magnética ainda poderia permitir a reprodução polifônica dos múltiplos canais de áudio, tornando mais complexo o conceito de ponto de escuta, criando assim novos desafios teóricos para quem estuda o cinema.



Mas isso só foi concretizado com a invenção do inglês Ray Dolby, PhD em Física, que abriu em 1965 os laboratórios Dolby. Ele conseguiu que a indústria fonográfica adotasse tal sistema para melhorar a qualidade da gravação dos discos e da reprodução em fitas de rolo e fitas cassete. De acordo com Michael Karagosian (2003), em 1970 a empresa anunciou melhorias para o som no cinema, a partir da redução dos ruídos de fundo e da possibilidade da reprodução de faixas multicanal em estéreo, ou seja, em duas pistas de áudio, nas películas de exibição com som ótico, as mais comuns - o Dolby Stereo. Desde então, a tecnologia foi sendo desenvolvida por meio do Dolby Surround, o Dolby Digital (5.1), o 6.1, até chegar ao 7.1 e ao novo Dolby Atmos.



A proposta do artigo é contextualizar e rastrear o caminho traçado pelas tecnologias multicanal de áudio para cinema, como o sistema Dolby, indagando se elas podem se aproximar do que Eisenstein vaticinou, se possibilitam a polifonia e a criação da terceira dimensão do som, e as consequências de tal via para a apreciação da profundidade sonora pelos espectadores/ouvintes. Logo após, examinar as implicações desse caminho para os conceitos de ponto de escuta e de arranjo audiovisual, desdobrados neste seminário da Socine em 2012. Para tanto, serão analisados filmes e cenas específicas, visando a identificação dos elementos utilizados e analisando o modo como a tecnologia multicanal de áudio é apropriada e relacionada com a exibição em 3D, em filmes como Frankenweenie, de Tim Burton, A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, e Pina, de Wim Wenders.
Bibliografia

CHION, Michel. A Audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Editora Texto & Grafia, 2008



EISENSTEIN, S. M., PUDOVKIN, V. I. & ALEXANDROV, G. V. Declaração sobre o futuro do cinema sonoro. In: EISENSTEIN, S. A forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002



EISENSTEIN, Serguei. O sentido do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2002



KARAGOSIAN, Michael. Multichannel Film Today. MPKE Consulting LLC, setembro de 2003. Disponível em: http://mkpe.com/publications/d-cinema/misc/multichannel.php. Acessado em 30/01/2013.



HANDZO, Stephen. Glossary of Film Sound Technology - Stereophonic Sound: from Disney to Dolby. In: WEIS, Elisabeth & BELTON, John. Film Sound: Theory and Practice. Nova York: Columbia University Press, 1985



VIDIGAL, Leonardo Alvares. Algumas considerações sobre a música nos filmes de Jean Rouch. Devires-Cinema e Humanidades. vol. 6, número 2. Dez. 2009. Disponível em http://www.fafich.ufmg.br/~devires/v6n2/download/04-Leonardo%20Vidigal.pdf. Acessado em 20/03/2013