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  Título
A imaginação melodramática: Douglas Sirk, Fassbinder e Walter Salles
Autor
Lisandro Nogueira
Resumo Expandido
Quando Peter Brooks publicou a segunda edição de seu livro Imagination Melodramatic, em 1995, o cinema estava prestes a completar um século de existência. Apesar de sua hipótese de um imaginário melodramático relacionar-se apenas às obras de Henry James e Balzac, seu estudo ganhou proporções especialmente relevantes pela extensão que o conceito, título da obra, encontrou em determinadas produções cinematográficas. Brooks propõe a presença de uma renovação do melodrama, nascido no teatro do primeiro ano do século XIX, quando este adquire as mais diversas facetas, convergentes para a intenção de tornar a modernidade assimilável aos sentidos de um público hiperestimulado.



Segundo essa lógica, o melodrama teria ultrapassado uma definição de gênero para alçar-se ao patamar de imaginário e se manteria ainda hoje, predominante e recorrente sobretudo em uma forma cinematográfica que se volta para o “dar a ver na superfície das coisas”, conforme conceitua Ismail Xavier (2003), muito mais do que para provocar no público o esforço capaz de produzir certa autonomia do indivíduo em relação à obra. Essa forte habilidade de introduzir o espectador numa atmosfera de sonhos e fantasias, em que se observa um mundo cuidadosamente coerente, no qual se constrói, pelos olhos do próprio espectador, uma trama cheia de reviravoltas e identificações , capaz de cativar, de uma maneira da qual é muito difícil desvencilhar-se, também graças à forma como remete o indivíduo a esse imaginário confortável e aconchegante, é muito anterior ao próprio cinema.



Peter Brooks fala da atemporalidade do melodrama, apesar de toda a ênfase que concede ao seu período de reformulação e consolidação, ao advogar a lógica de que, muito mais do que tratar de “melodrama”, caberia a problematização de um “melodramático” que se entranha nas mais inesperadas e improváveis produções artísticas. Partindo dessa argumentação, para além do substantivo, o que veríamos – e aqui já estamos pensando em cinema – e que prevaleceria de maneira muito mais agressiva é o oferecimento de uma certa maneira de olhar e entender o mundo que se engendra na televisão, na literatura, na publicidade, no jornalismo. É nesse sentido que o melodrama deixa de relacionar-se apenas a determinado momento histórico para incorporar-se aos mais inusitados contextos de produção cultural em virtude de sua manifestação como o adjetivo “melodramático”, atribuindo valor a algo.



No cinema, o melodrama existiria na forma de uma imaginação melodramática que, muitas vezes, é responsabilizada por afetar, em um grau prejudicial, o público diante da obra. Haveria, portanto, uma instância de envolvimento com obras produzidas conforme esse imaginário, capaz de minimizar níveis de autoconsciência do público, atingindo o espectador em seu ponto mais frágil, naquilo que ele carrega, oculta e negocia todo o tempo: seus julgamentos sobre o mundo. Organizando o mundo em nítidos contornos de preto e branco, opondo tiranos e vítimas, o melodrama não deixa de ser apontado como culpado por uma doutrinação “emburecedora”, que eximiria o público de tomar certas atitudes críticas.



A análise dos filmes de Douglas Sirk (1900-1987) e Rainer W. Fassbinder, nos permite problematizar os conceitos de "Melodrama" e "Imaginação melodramática" e abrir novas possibilidades de apreciação critica para obras cinematográficas consideradas "menores". O elo entre as cinematografias de Douglas Sirk e Rainer Fassibinder é a chave para compreender aquilo que Theodor Adorno considerava o antídoto para a indústria cultural: a possibilidade de criação dentro das normas da indústria. Esses cineastas labutam dentro de um sistema industrial (Fassbinder bem menos mas, mesmo assim, não foge dos ditames dos produtores)que elege o tons melodramáticos como os mais vendáveis. Mas é justamente com eles que vamos compreender o conceito de "Imaginação melodramática". Bem mais complexo do que Melodrama.
Bibliografia

Brooks, Peter. Melodramatic Imagination. Yale University Press, 1995.

Xavier, Ismail. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac & Naify, 2003

Bordwell, David. Narration in The Fiction Film. Wisconsin University, 1987.

Thomasseau, Jean-Marie. Le mélodrame. Press Universitaires de France, 2001.

Nogueira, Lisandro. O autor na TV. São Paulo: Edusp-UFG, 2002.

Huppes, Ivete. Melodrama, o gênero e sua permanência. S.Paulo: Atêlie Editorial,2000.

Klinger, Barbara. Melodrama and Meaning: History, Culture, and the Films of Douglas Sirk.