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  Título
O Grotesco ao Redor: notas sobre o horror brasileiro contemporâneo
Autor
Fernando de Mendonça
Resumo Expandido
Considerando-se a difícil trajetória histórica percorrida pelo gênero do horror dentro do cinema brasileiro, é compreensível o estranhamento com que o público e a crítica vêm recebendo alguns filmes que, atualmente, revisitam os interesses desta estética particular. As duas reações típicas do ‘sentimento de diferença’ causado por tais filmes são significativas: há um fascínio ao redor dos efeitos provocados pelo horror, em evidência pela alta exposição (nas premiações e bilheterias) dos títulos aí envolvidos, assim como é possível sentir um distanciamento destes efeitos, pelo contexto de um imaginário cinéfilo que demonstra não ‘saber o que fazer’ com o cenário emergente.

Filmes como O Som Ao Redor (Kleber Mendonça Filho, 2012) e Trabalhar Cansa (Juliana Rojas & Marco Dutra, 2011) são exemplos desta realidade e partilham uma profunda identificação no que propõem desde a superfície de suas imagens. Pela circulação de ambos no sistema comercial e pela maneira como o título de 2011 ‘abriu caminhos’ para o mais recente, identificamos neles alguns sintomas que reposicionam o gênero dentro do contexto brasileiro. São como filmes-irmãos, arriscamos dizer, exercícios discretos de narrativas voltadas para o cotidiano de seres humanos comuns, diante de situações particulares, vivenciando experiências incomuns que não podem ser lidas sob uma perspectiva que não atravesse a do evento Fantástico (TODOROV, 1975).

Nossa abordagem destes dois filmes tem por objetivo desenvolver uma leitura que identifique os mecanismos da criação narrativa do horror, dentro de um espaço de produção que é ao mesmo tempo restrito (geográfica e temporalmente), mas irmanado a um universo de influências que alcança, desde outros cinemas, até outras expressões e usos da linguagem (como a literatura). Daí a pertinência de contemplarmos os objetos de pesquisa a partir de conceitos pertencentes não só ao audiovisual, mas a toda uma teoria da estética que não reduz a aplicação de seus parâmetros, mas amplia o leque de interpretações a se realizar. Fazemos menção ao “Realismo Grotesco” (BAKHTIN, 1996; KAYSER, 2003; HUGO, 2002) como uma das principais chaves de leitura a ser utilizada na interseção dos filmes citados. Por tratar-se de obras voltadas para uma manipulação mais introspectiva do horror, em que a principal operação formal consiste no deslocamento dos pontos de vista narrativos, ou seja, na transformação e no alheamento do mundo que pregam os teóricos deste conceito, acreditamos que tal abordagem ilumine as referências cinematográficas aproximando-as, inclusive, de momentos do cinema brasileiro que também foram marcados por esta característica grotesca.

O Som Ao Redor e Trabalhar Cansa são exercícios de encenação que concentram a sua potencialidade na criação específica de uma atmosfera comum, apropriada à manifestação do horror e ao sentimento do medo. Os efeitos da atmosfera sobre este gênero (GIL, 2005), são aquilo que nos permitirá uma aproximação dos filmes analisados com parte da filmografia de outro diretor que se revela fundamental para a compreensão do horror contemporâneo no cinema brasileiro: O Anjo da Noite (Walter Hugo Khouri, 1974) e As Filhas do Fogo (Walter Hugo Khouri, 1978), grandes momentos de um cinema quase esquecido, espelhamentos que dialogam de perto com os filmes hoje em destaque. A comparação e conexão destas obras, na perspectiva que adotamos, torna-se o ponto culminante do que pretendemos refletir, na avaliação de um cinema que se faz novo, mas não esconde o interesse pela tradição. O estranhamento que hoje nos rodeia, pode ser o eco de vozes que ainda não foram adequadamente ouvidas, reflexos de um sobrenatural que não se perdeu e ainda espera avaliação. Não nos aliamos ao silêncio.
Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 1996.

CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? – uma história do horror nos filmes brasileiros. Campinas: UNICAMP, 2008. Tese Doutorado.

CARROLL, Nöel. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas: Papirus, 1999.

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que nos vemos, o que nos olha. Porto: Dafne, 2011.

GIL, Inês. A atmosfera no cinema. Lisboa: Calouste Gulbekian, 2005.

HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.

KAYSER, Wolfgang. O grotesco. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PIEDADE, Lucio de Franciscis dos Reis. A cultura do lixo: horror, sexo e exploração no cinema. Campinas: UNICAMP, 2002. Dissertação Mestrado.

SODRÉ, Muniz; PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

SONTAG, Susan. A estética do silencio. In: A vontade radical. São Paulo: Cia das Letras, 1987.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva,