/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
As estranhas e selvagens canções de Miguel Gomes
Autor
Angela Freire Prysthon
Resumo Expandido
O cinema português tem se consolidado nos últimos vinte anos como uma reserva de surpresas, de experimentos e invenções no cinema contemporâneo. Se até o início da década de 2000, tinha em Manoel de Oliveira e João César Monteiro praticamente os únicos diretores de renome internacional, a partir de diretores como Pedro Costa, João Pedro Rodrigues, João Nicolau e Miguel Gomes, Portugal se caracterizou em alguns aspectos como uma vanguarda fílmica ou pelo menos como uma "onda" em um sentido vagamente similar àquele do "cinema iraniano" dos anos 1990 ou "cinema romeno" dos 2000.

Inegavelmente o centenário Manoel de Oliveira continua sendo a principal referência portuguesa numa escala maior. Dos nomes das gerações subsequentes a Oliveira e Monteiro, todavia, Costa talvez seja o mais influente e desafiador deles, com filmes que se tornaram referência para algumas das experimentações mais ousadas no cinema atual, para uma boa parte dos entrecruzamentos entre documentário e ficção, e confundiram as fronteiras entre o que se considera estritamente cinema e as artes visuais, ainda que nunca tenha se constituído como cinema de artista no sentido tradicional.

Podendo ser vista também como reflexo de todas essas influências precedentes do cinema português e evidentemente de outros realizadores do cinema mundial, a obra de Miguel Gomes me parece particularmente incisiva pelo modo através do qual adere, rechaça e transforma - tudo isso ao mesmo tempo - o realismo preponderante no cinema dito de arte contemporâneo e nas suas estratégias literárias de construção narrativa. Em todos os filmes de sua ainda curta carreira, ele conjurou um mundo onde música, invenção, humor e nonsense dão o tom. Gomes opera pelo menos em dois níveis, o de um realismo convencional e o de uma subversão imperiosa desse realismo, seja através da exploração dos limites entre ficção e real, seja no jogo com a linguagem fílmica ou mesmo no processamento de suas citações cinéfilas.

Analisaremos a evocação afetiva do universo cinéfilo nos seus filmes e como ela contribui para a construção do seu estilo narrativo singular. Como por exemplo, em "A cara que mereces", onde ele se utiliza de elementos do musical e dos contos de fadas para desenhar uma sorte de "Branca de Neve e os sete anões" perverso e ensandecido fazendo uma incursão num universo infantil já desenhado anteriormente em seus curtas. Ou como em "Aquele querido mês de agosto", no qual o diretor vai experimentar mais intensamente as possibilidades de jogo entre o real e o ficcional. A partir de uma intrincada e desgovernada estrutura metalinguística, o filme, que aparentemente foi concebido como uma ficção, começa como um documentário semi-etnográfico sobre grupos musicais populares e os moradores de Arganil, metamorfoseia-se em um romance adolescente entre a cantora e um dos músicos de uma das bandas, intercalados por cenas com os próprios realizadores, ora discutindo os rumos do próprio filme , ora aproveitando as delícias do ócio. Finalizando com "Tabu", que levou Gomes a um retorno mais estruturado e menos audacioso que o anterior, ainda que mantendo a voluntariosa excentricidade que o define. Apesar de privilegiar bem mais as referências a gêneros e filmes e de em alguns momentos parecer estar muito preocupado com a construção de um estilo, às vezes contaminado por uma hiperfabulação, Gomes não passa ao largo da política, ou é escapista no seu olhar para o colonialismo, ou mesmo para a política contemporânea. As fantasias nostálgicas e o romantismo deslavado demonstram como só a partir do falso, do postiço é possível desenhar a fina e melancólica ironia que encobre suas narrativas.

Podemos ver em Gomes como a frivolidade e o afeto podem ser modos de ler a história a contrapelo, como o artifício pode se revelar um protesto contra o contingente, e como a ironia pode ser um signo de resistência, como o supérfluo pode comunicar o político, enfim, como o cinema está pensando à nossa frente.
Bibliografia

BADLEY, Linda, PALMER, R. Barton e SCHNEIDER, Steven Jay (eds). Traditions in World Cinema. Edimburgo: Edinburgh University Press, 2006.

BARTHES, Roland. O neutro. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

JAMESON, Fredric. Signatures of the visible. Londres/New York: Routledge, 1992.

MARTIN-JONES, David. Deleuze and World Cinemas. London/New York: Continuum, 2011.

MARTIN-JONES, David e VIDAL, Belén (org). Cinema at the Periphery. Detroit: Wayne State University Press, 2010, pp. 137-155.

NAGIB, Lúcia, PERRIAM, Chris and DUDRAH, Rajinder (eds). Theorizing World Cinema. London/New York: I.B. Tauris, 2012.

NEYRAT, Cyril. Au pied du Mont Tabou. Le cinéma de Miguel Gomes. Paris: Independencia Éditions, 2012.

SHOHAT, Ella. Taboo memories, diasporic voices. Durham: Duke University Press, 2006.

WIGON, Zachary. "The Pact: Miguel Gomes on Cinema and Tabu". Filmmaker Magazine, 2012. Disponível em http://filmmakermagazine.com/61331-the-pact-miguel-gomes-on-cinema-and-tabu/