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  Título
Arquitetura, arqueologia e memória no cinema de Jia Zhang-ke
Autor
Cecília Antakly de Mello
Resumo Expandido
A comunicação proposta é dedicada a um estudo da relação intermidiática entre cinema e arquitetura nos filmes Xiao Wu (1997), Plataforma (2000), O mundo (2004) e Still Life (2006), do diretor chinês Jia Zhang-ke.

Um dos principais diretores do cinema mundial contemporâneo, Jia é considerado o principal nome da Sexta Geração do cinema chinês, também conhecida como a ‘geração urbana’ por seu enfoque na vida e na paisagem das cidades do país. Por vezes chamado de ‘o poeta da globalização’, Jia é também, como sugere Chris Berry, um ‘historiador’ da China contemporânea. Articulando através do cinema diversos aspectos da realidade de seu país, sua obra é impulsionada por um olhar para o passado, de sobretons nostálgicos, e ao mesmo tempo por uma urgência em filmar o desaparecimento do velho e o surgimento do novo. A combinação destes dois vetores resulta na atualidade e na força de seu cinema, que parece funcionar como um diagnóstico dos nossos tempos.

Minha intenção é analisar de que modo seus filmes, que refletem de diferentes maneiras a passagem do tempo e as transformações da China contemporânea, incorporam estruturas arquitetônicas como veículos da passagem do tempo, em uma exploração arqueológica da arte cinematográfica. Da arquitetura vernacular de residências (siheyuan) típica do norte da China, passando pelas muralhas de Ping Yao e pela cidade histórica de Feng Jie, as construções atravessadas pelo cinema de Jia apontam por um lado para as diferentes camadas temporais e históricas de um real instável. Por outro lado, os muros dessas construções parecem conter marcas da memória subjetiva de seus habitantes – de traços no muro da casa que marcam as diferentes alturas de Xiao Wu à transferência para a parede do bilhete escrito por Erguniang em seu leito de morte em O mundo. Essas inscrições, que encontram um contraponto no ideograma ‘chai’ (demolir), inscrito à tinta nos vários prédios de Feng Jie em Still Life, levam a uma reflexão acerca do valor mnemônico e afetivo do traço indéxico no cinema de Jia (Rosen, 2001; Wollen, 1969), cuja política temporal está imbricada à materialidade do cinema e à sua capacidade de articulação do eterno e do efêmero.

Bibliografia

Andrew, Dudley (2010), ‘Time Zones and Jetlag: The Flows and Phases of World Cinema’. In Durovicova, Natasa & Newman, Kathleen, World Cinema, Transnational Perspectives. New York and London: Routledge.

Bazin, André (2002), Qu’est-ce que le cinéma?, Paris: Les Éditions du Cerf.

Berry, Michael (2009), Jia Zhangke’s ‘Hometown Trilogy’. London: BFI.

Bruno, Giuliana (2007), Public Intimacy: Architecture and the Visual Arts. Cambridge, Mass and London: The MIT Press.

Cai, Yanxin & Lu, Bingjie (2006), Chinese Architecture. Beijing: China Intercontinental Press.

Fiant, Antony (2009), Le cinéma de Jia Zhang-ke: no future (made) in China. Rennes: Presses universitaires de Rennes.

Jia, Zhang-ke (2008), Jiaxiang 1996-2008. Pequim: Peking University Press.

Ma, Jean (2010), Melancholy Drift: Marking Time in Chinese Cinema. Hong Kong: Hong Kong University Press.

Rosen, Philip (2001), Change Mummified: Cinema, Historicity, Theory. Minneapolis: University of Minnesota Press.