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  Título
Trabalho imaterial no cinema contemporâneo: o caso Alex Rivera
Autor
Alfredo Luiz Paes de Oliveira Suppia
Resumo Expandido
O conceito de "trabalho imaterial" é geralmente identificado com o capitalismo pós-fordista e a ascensão do setor de serviços. Michael Hardt e Antonio Negri observam que "[h]oje, informação e comunicação desempenham um papel fundamental nos processos de produção" (2001: 310). Os autores afirmam que a transição para uma economia da informação envolve, necessariamente, uma mudança em termos de qualidade e natureza do trabalho. De acordo com Hardt e Negri, "[c]omo a produção de serviços não resulta em bens materiais duráveis, definimos o trabalho envolvido nessa produção como trabalho imaterial - ou seja, o trabalho que produz um bem imaterial, tais como serviços, produtos culturais, conhecimento ou comunicação"(2001: 311).



Naturalmente, o conceito de trabalho imaterial tem sido alvo de debates e contra-argumentos. Por exemplo, ele foi criticado por "(...) George Caffentzis (1998), que acusou Negri de celebrar 'cyborgs' e 'trabalho imaterial', ignorando o 'renascimento da escravidão' efetuada por fábricas, agronegócios e bordéis (... )" (apud Dyer-Whiteford, 2001: 72). Dyer-Whiteford alerta que o termo “imaterialidade” poderia facilmente ocultar alguns componentes muito corporais do trabalho high-tech contemporâneo (...) "(2001: 71). O autor sugere que "(...) a prioridade que Negri e seus colaboradores deram ao 'trabalho imaterial' parecia diminuir a contínua importância, na economia pós-fordista, de uma vasta massa de trabalho muito físico e material (...)" (2001 : 71).



O objetivo deste artigo é analisar a obra de Alex Rivera, especialmente o curta-metragem Why Cybraceros? (1997) e o longa de ficção Sleep Dealer (2008), sob a perspectiva do trabalho imaterial. Cineasta e artista multimídia, Rivera remixa e revisita convenções de gênero em seus filmes com propósitos de ativismo político. Why Cybraceros? é um mockumentary inspirado no Programa Bracero americano. Este curta-metragem remixa a política americana para trabalhadores estrangeiros na metade do século XX com propostas contemporâneas de home-office e trabalho remoto (à distância), inventando uma distopia tragicômica em que trabalhadores mexicanos são explorados em seu próprio país. Sleep Dealer expande essa distopia em um longa-metragem de ficção científica. Considerado uma espécie de "Matrix latino-americano", Sleep Dealer engendra uma distopia especulativa que discute termos como reificação, alienação, capital global, o impacto da tecnologia na vida cotidiana e as relações sociais mediadas por tecnologias de telepresença. O filme de Rivera retrata um futuro em que a telepresença serve diligentemente ao Capital, tornando o corpo humano uma commodity e um objeto de extrema exploração. A simultânea extensão e ausência do corpo proporciona uma estratégia onipresente para a exploração humana em diversos níveis (econômico, militar, íntimo e privado, etc), apresentando uma visão depressiva de conceitos como alienação e reificação, baseada em tecnologia extrapolada – porém não muito distante do panorama atual.



Empregando uma estratégia transmídia, Sleep Dealer invoca teorias sobre "capitalismo cognitivo", bem como conceitos marxistas. Seus personagens principais ilustram a polêmica em torno de uma suposta "imaterialidade" do "trabalho imaterial". Desta forma, a obra de Rivera reitera demandas contemporâneas por uma crítica marxista da economia da informação, revista e renovada, à medida em que recontextualiza o proletariado e o Lumpenproletariat num contexto capitalista global e high tech - apenas ligeiramente extrapolado a partir do ponto de vista atual. Além disso, vale a pena observar de imediato, a "imaterialidade" em Sleep Dealer é suficientemente corporal – tal aspecto (ilustrado pelas tecnologias de telepresença e artefatos como os drones militares ou as “fábricas” no filme) funciona como uma metáfora reveladora do caráter material e físico profundamente enraizado no contexto do capitalismo pós-fordista de alta tecnologia.
Bibliografia

CAMARGO, Silvio. “Trabalho imaterial, cultura e dominação”. Liinc, vol. 6, n. 1, 2010, pp. 6-21, available at http://revista.ibict.br/liinc/index.php/liinc/article/viewFile/324/224. Acessed on Nov 9, 2012.

DYER-WHITEFORD, Nick. Empire, Immaterial Labor, the New Combinations, and the Global Worker. Rethinking Marxism, vol. 13, number 3/4 (Fall/Winter 2001). Available at http://hem.passagen.se/kozelek/rm/8.pdf. Acessed on Nov 9, 2012

FREEDMAN, Carl. Marxism and Science Fiction. In: James Gunn, Marleen S. Barr and Mathew Candelaria (eds.) Reading Science Fiction. London: Palgrave, 2009, pp. 120-32.

HARDT, Michael and NEGRI, Antonio. Empire. Cambridge: Harvard Univ. Press, 2001.

RIVERA, Alex. Interview to Crossed Genres. Available at. http://crossedgenres.com/archives/024-charactersofcolor/interview-alex-rivera/. Acessed on Nov 9, 2012.

VÁSQUEZ, Adolfo Sánchez. As Idéias Estéticas de Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2011.