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  Título
ARTE E INDÚSTRIA: AS IDÉIAS DE LUIZ DE BARROS NO DIÁRIO TRABALHISTA
Autor
Luís Alberto Rocha Melo
Resumo Expandido
A presente proposta é um aprofundamento da comunicação apresentada no XVI Encontro da Socine – 2012, intitulada “Cinema. Comentário do Dia: Luiz de Barros no Diário Trabalhista”. Entre maio de 1946 e janeiro de 1947, o cineasta Luiz de Barros manteve a coluna “Cinema. Comentário do Dia” no jornal carioca Diário Trabalhista, fundado em 1945. Dentre os temas tratados na coluna durante esse período, cerca de 95 crônicas tratavam dos aspectos de arte e indústria, técnica e estética, inerentes à atividade cinematográfica. Interessa-nos aqui mapear as idéias de Luiz de Barros, em sua coluna no Diário Trabalhista, relativas às contradições entre Arte e Indústria, na medida em que esses termos remetem a uma discussão mais ampla, corrente no meio cinematográfico brasileiro daquele período. Mais especificamente, perguntamos o que Luiz de Barros entendia naquela época por “Arte” e por “Indústria”, e em que medida o seu próprio trabalho como realizador dialoga com tais reflexões a respeito.

A preocupação com o caráter simultaneamente artístico e industrial do cinema é comum a um conjunto muito heterogêneo de críticos atuantes nos anos 1940-50, podendo-se destacar, dentre eles, nomes como Walter da Silveira, Moniz Vianna, Salvyano Cavalcanti de Paiva, Alex Viany e Anatol Rosenfeld. Mesmo em uma revista de ampla circulação e apelo popular como A Cena Muda podemos encontrar um debate voltado a esse tema. Em um editorial de 14 de março de 1950, por exemplo, Leon Eliachar assim se expressa em relação ao assunto: “Sempre existiram artistas e sempre existirão, onde quer que haja uma câmera. Contudo, a dois passos de um artista, haverá também dois espíritos comerciais que industrializam a Arte, que transformam o celulóide em fábricas de cifras. Se estes homens [...] cometem o crime de massacrar a arte [...], paradoxalmente, contribuem também para a sua evolução, porque os seus trabalhos trazem um grande rendimento financeiro que será empregado na própria indústria.”

O diferencial em relação às reflexões de Luiz de Barros é que elas decorrem de um profissional que, embora desempenhando a função de cronista cinematográfico, falava antes de tudo como um cineasta. Assim, a defesa do cinema como arte ou como indústria (ou ainda, como uma arte eminentemente industrial e vice-versa) passava pela defesa de um cinema “possível” em contraposição a um cinema “ideal”. Este cinema “possível”, no entanto, deveria ter como meta o modelo “ideal”. Mas para que esse modelo fosse concretizado, fazia-se necessário implementar a indústria, capacitar técnica e financeiramente o cinema, o que somente ocorreria com a produção continuada de filmes de bilheteria – logo, de filmes que tivessem apelo popular. Aqui identifica-se o impasse: o filme de apelo popular de maior sucesso (via de regra, a chanchada carnavalesca) era de fato o único “possível” – mas este estava longe de ser visto e entendido como o modelo “ideal”, até mesmo por Luiz de Barros, um de seus mais notórios realizadores. “O problema é bastante difícil de ser resolvido”, confessa o cronista na coluna de 06 de novembro de 1946. “Deve ou não a indústria transigir com a arte? É possível conciliar as duas? [...] De fato, não são os filmes de arte mais pura, mais elevada, os que mais têm produzido renda. Os que mais lucram são os dramalhões tipo folhetim ou as comédias. É triste, mas tem sido assim. Como, pois, resolver esse problema?”

O objetivo da presente proposta é, portanto, buscar entender como Luiz de Barros lidava com esse impasse, identificando em sua argumentação os termos Arte e Indústria como campos de convergência e de conflito. Por fim, a proposta pretende também articular as idéias de Luiz de Barros sobre Arte e Indústria com dois filmes realizados pelo cineasta naquele período: o drama "O cortiço" (1945), reconhecido e premiado pela crítica da época, e a comédia carnavalesca "Caídos do céu" (1946), então em exibição durante o período em que Luiz de Barros era colunista do Diário Trabalhista.

Bibliografia

BARROS, Luiz de. Colunas “Cinema. Comentário do dia”. Diário Trabalhista. Rio de Janeiro: mar 1946-jan 1947.

ELIACHAR, Leon. “Ofensiva contra a arte”. A Cena Muda. Vol. 30 (11). Rio de Janeiro: 14 mar 1950, p. 03.