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  Título
O fotógrafo, a atriz: marcas de gênero nos manuais de cinematografia e na prática fotográfica do cinema mexicano da idade de ouro
Autor
Marina Cavalcanti Tedesco
Resumo Expandido
Entre as décadas de 1910 e 1930 os profissionais que trabalhavam em Hollywood desenvolveram e consolidaram técnicas e padrões estéticos, estilísticos, de produção, etc., os quais, em seu conjunto, conformaram o repertório de filmes realizados nos anos 1930, 1940 e 1950 e que ficaria conhecido como cinema clássico (BORDWELL, STAIGER; THOMPSON, 1985; SALT, 2009).

No que tange à fotografia cinematográfica, é possível encontrar desde tal época uma série de regras para registrar a imagem da mulher de forma “correta” (o que significa aproximá-la ao máximo de certo ideal de beleza). Inicialmente, o ensino destas e de outras prescrições fotográficas ocorria apenas através do sistema de aprendizes dos estúdios (THOMPSON, 1999, p. 232). Com o tempo, elas começaram a povoar os recém surgidos manuais de cinematografia.

Em Painting with light, livro pioneiro escrito pelo diretor de fotografia John Alton (vencedor do Oscar de Melhor Fotografia por An American in Paris (Vincente Minnelli, Estados Unidos, 1951)) e publicado pela primeira vez em 1949, há recomendações muito claras que deviam ser seguidas no momento de construir a imagem feminina e que abarcavam todo o instrumental à disposição do fotógrafo cinematográfico: refletores, objetivas, acessórios... A título de ilustração, apresentamos uma de suas normas: “as regras usuais para a difusão são: de modo geral, nada de difusão em tomadas abertas ou distantes; difusão pesada em closes, especialmente em retratos feminino” (ALTON, 1997, p. 89).

Podemos encontrar ecos destes ensinamentos que imbricam de maneira explícita gênero e direção de fotografia em diversos outros manuais de cinematografia – inclusive em obras contemporâneas, como 50 Anos Luz – Câmera e Ação (MOURA, 2005) e Reflections – twenty-one cinematographers at work (BERGERY, 2002), e também nos relatos de profissionais experientes na área. Não por acaso, as memórias do fotógrafo Joe Walker foram por ele intituladas The light on her face (1993).

Não devemos, contudo, confundir as prescrições para a realização cinematográfica com a própria realização cinematográfica. “Uma técnica é nominalmente plena, absoluta, mas raramente é usada em sua plenitude. Cada ator a toma segundo uma maneira. Teoricamente, ela é plena; na prática não o é... Passamos do ‘absoluto’ irrealizado ao ‘relativo’ realizado” (SANTOS, 2006, p. 124). Ao identificar a dramatização, a hierarquização e a visibilidade como os três pilares da fotografia cinematográfica clássica Fabrice Revault D’Allonnes (1991, p.29-33) já sinaliza a impossibilidade da existência de apenas um tipo de visibilidade feminina nas telas.

Por isso, no presente trabalho propomos uma investigação sobre os encaixes e desencaixes entre as regras hollywoodianas para fotografar a mulher de forma “correta” e a prática fotográfica do cinema mexicano da idade de ouro a partir de seis filmes protagonizados pelas stars Dolores del Río e María Félix. São eles: Doña Bárbara (Fernando de Fuentes, México, 1943), María Candelaria (Emilio Fernández, México, 1943), La monja alférez (Emilio Gómez Muriel, México, 1944), Las abandonadas (Emilio Fernández, México, 1944), Río Escondido (Emilio Fernández, México, 1947) e La casa chica (Roberto Gavaldón, México, 1950).

A opção pelo cinema mexicano da idade de ouro é decorrente de o México ter tido a maior indústria cinematográfica – e o mais famoso star system – da América Latina durante o período englobado pelo cinema clássico (indústria que, cabe destacar, surgiu menos de duas décadas depois do fim da revolução mexicana e desempenhou um papel importante no novo projeto de nação). Trata-se, por conseguinte, de uma excelente oportunidade para verificar como a associação entre gênero e direção de fotografia gestada e consolidada em Hollywood aparece em um contexto tão distinto e, ao mesmo tempo, tão influenciado por ela.
Bibliografia

ALTON, John. Painting with light. 2 ed. University of California Press: California: 1997.



BERGERY, Benjamin. Reflections: twenty-one cinematographers at work. Los Angeles: A S C Holding Corp, 2002.



BORDWELL, David; STAIGER, Janet; THOMPSON, Kriston. The Classical Hollywood: Film Style & Mode of Production to 1960. Londres: Routledge, 1985.



D’ALLONNES, Fabrice Revault. La lumière au cinema. Paris: Editions Cahiers de cinema, 1991.



MOURA, Edgar. 50 Anos Luz – Câmera e Ação. 2 ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005.



SALT, Barry. Film style and technology: history and analysis. Starword: Londres, 2009.



SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.



WALKER, Joseph; WALKER, Juanita. The light on her face. Los Angeles: A S C Holding Corp, 1993.