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  Título
Imagens em Vida humilde: diálogos entre Eisenstein e Sokúrov
Autor
Breno Morita Forastieri da Silva
Resumo Expandido
O extenso corpo teórico legado por Eisenstein, parte dele inédito mesmo na Rússia, desenvolve um complexo para se pensar não apenas o cinema, como também as artes de uma maneira mais ampla. Sua busca por entender aquilo que seria o específico do cinema e em como desenvolver tais qualidades passa constantemente pela análise de outras formas de arte, como o desenho, a pintura, o teatro, a poesia, a literatura e tantas outras. Tal empreendimento é possível pois suas investigações não se limitam às questões técnicas, mas perscrutam os fundamentos composicionais das mesmas. Muitas dessas análises voltam-se para o que há de cinematográfico em determinadas obras de arte, produzindo reflexões que se encaminham ao cinema como questões a serem desenvolvidas. Nesta apresentação, o conceito eisensteiniano de imagem, presente de maneira mais sistemática em seus textos a partir de 1937, servirá como eixo organizador para a análise de uma imagem poética depreendida de uma sequência do filme Vida humilde (1997), de Aleksandr Sokúrov (1951-). No artigo Palavra e imagem, Eisenstein afirma que “Uma obra de arte, entendida dinamicamente, é apenas este processo de organizar imagens no sentimento e na mente do espectador” (EISENSTEIN, 2002, p.21). Segundo essa concepção de arte, que aborda a imagem do ponto de vista da percepção do espectador, o trabalho de análise não se dirige à imagem estática, mas sim à dinâmica de seus elementos de montagem no interior da obra, procedimento este que também será adotado nesta apresentação. Para uma aproximação a esse conceito de imagem, partiremos de alguns de seus textos e de estudos de Arlindo Machado (1981), Jacques Aumont (1979) e François Albera (2002), para operar uma distinção entre representação e imagem no seio da teoria de montagem. Em seguida, com contribuições de Viatcheslav Ivánov (2009), serão apresentados subsídios para se pensar de que maneira o “sentimento” e a “mente do espectador”, termos presentes na citação acima, articulam-se tanto em relação à imagem quanto à montagem. Apresentados esses parâmetros, propõem-se uma análise da linguagem de maneira a evidenciar, por meio da decupagem de uma sequência curta, alguns elementos que se reforçam na construção de uma imagem geral que se desenvolve no decorrer do filme, mas que não é apreensível em um fotograma isolado. Cabe enfatizar que não se trata de uma intenção de filiar um artista a outro, dado a natureza distinta dos trabalhos de cada um desses autores, mas sim de se verificar a potencialidade do legado teórico de Eisenstein para uma análise da produção artística contemporânea.
Bibliografia

ALBERA, François. Eisenstein e o construtivismo russo: A dramaturgia da forma em “Stuttgart”(1929). Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. Título original em francês: Eisenstein et le constructivisme russe – Stuttgart, dramaturgie de la forme.

AUMONT, Jaques. Montage Eisenstein. Paris: Ed. Albatros, 1979.

EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme. Trad. Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002a. Título original em inglês: Film form.

______. O sentido do filme. Trad. Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002b. Título original em inglês: Film sense.

IVÁNOV, Viatcheslav. Dos diários de Serguei Eisenstein e outros ensaios. Trad. Aurora Fornoni Bernardini e Noé Silva. São Paulo: Edusp, 2009.

MACHADO, Arlindo. Eisenstein: Um dialogismo radical. Revista Polímica, São Paulo: Ed. Moraes Ltda., n.3, p.23-44, 1981.